Os petróglifos – ou gravuras rupestres – são uma forma de expressão visual ancestral, usada pelos antigos habitantes da humanidade para retratar e registrar eventos, crenças e aspectos do cotidiano. E como a Armênia é um dos lugares habitados mais antigos do planeta, lá não poderia ser diferente, claro.
Segundo Karen Tokhatyan, pesquisador da Academia Nacional de Ciências da República da Armênia e especialista no assunto, essas gravações rupestres representam uma necessidade inerente do ser humano de documentar o que via e vivia, seja por meio de palavras ou imagens.
Exemplo de petróglifos em Ukhtasar, na Armênia
No passado, os petroglifos serviam como uma forma primitiva de comunicação. Muitos deles contêm símbolos especiais que descrevem fenômenos naturais, rituais e atividades humanas. Essas representações são verdadeiros tesouros históricos, pois revelam detalhes sobre o cotidiano, as tradições e a percepção espiritual dos povos antigos. Estima-se que a Armênia abriga entre 20 e 30 mil petroglifos espalhados pelo território.
Petróglifos na Armênia
Os petroglifos armênios remontam ao Neolítico, Eneolítico e Idade do Bronze. Harutyun Martirosyan, renomado estudioso do tema, argumenta que a arte rupestre da Armênia reflete as mudanças na percepção humana da natureza ao longo dos séculos. Com o tempo, as representações ganharam complexidade, incluindo cenas de caça e combate, em que figuras humanas assumem um papel central.
Entre os locais com maior concentração dessas gravuras, destacam-se:
- Montes Geghama: Abrigam a maior parte dos petróglifos do país, considerados verdadeiros santuários dos caçadores-coletores da antiguidade.
- Montanhas Vardenis, Vayots Dzor e Syunik: Situadas próximas ao Lago Sevan, também apresentam um grande número de registros rupestres.
- Ukhtasar: Um dos locais mais impressionantes, com mais de 2.000 petróglifos datados entre os milênios V e II a.C.
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Monte Sartsali: Apesar de menos estudado, é um dos locais recentes de descoberta de petróglifos.
Arte rupestre no Monte Sartsali
Os petróglifos dos Montes Geghama
Os petróglifos da região de Geghama retratam diversos animais, como bisões, veados, alces, cavalos selvagens, lobos, linces, leões e leopardos, muitos dos quais não existem mais na Armênia. As cenas de caça encontradas nessas gravuras fornecem informações valiosas sobre as atividades econômicas da época, como a domesticação de animais e a sobrevivência em um ambiente hostil.
Martirosyan destaca uma gravura específica encontrada no Monte Pokr Paytasar, que mostra um dragão de duas cabeças com um corpo em forma de disco, simbolizando uma figura humana. Essa imagem está associada a antigas lendas e mitos armênios.
Arte rupestre nos Montes Geghama
Os misteriosos petróglifos de Ukhtasar
Ukhtasar abriga uma vasta coleção de petroglifos que ilustram caçadores, cerimônias religiosas e fenômenos astronômicos. Algumas dessas gravuras mostram figuras humanoides com características solares e elétricas, lutando contra dragões. Segundo Martirosyan, esses registros podem estar ligados a antigas divindades do sol e do trovão.
Uma das imagens mais intrigantes de Ukhtasar representa uma figura humana forte e destemida, que pisa a cabeça de um dragão. Essa representação pode simbolizar um herói mitológico triunfando sobre uma criatura demoníaca.
Arte rupestre encontrada em Ukhtasar
As descobertas em Sartsali
Recentemente, foram encontrados vários petroglifos ao pé do Monte Sartsali. Embora sua datação ainda seja incerta, acredita-se que sejam mais recentes em comparação aos demais. Como ainda não foram amplamente estudados, os especialistas esperam que essas gravuras forneçam novas pistas sobre a evolução da arte rupestre na região.
Arte rupestre encontrada em Artsali
Distribuição geográfica dos petróglifos na Armênia
Essas artes fascinantes estão espalhados por praticamente toda a Armênia. Entre os locais onde essas gravuras podem ser encontradas, destacam-se:
- Yerevan (Distrito de Avan)
- Região de Ararat (Floresta de Khosrov)
- Armavir (Metsamor, Mosteiro de Santa Shushanik)
- Aragatsotn (Monte Aragats, Mastara, Voskehat, entre outros)
- Shirak (Tirashen, Anipemza, Yererouk, etc.)
- Lori (Loriberd, Koghes, Neghots)
- Tavush (Vila Gosh)
- Kotayk (Zovuni, Geghard, Bjni, entre outros)
- Gegharkunik (Lchashen, Sevsar, Vardenis Pass)
- Syunik (Ukhtasar, Krahunj, Monte Navasar).
Esses petróglifos são uma valiosa fonte de informações sobre a história, a cultura e as crenças dos povos antigos que habitavam a região que hoje se encontra a Armênia. Essas gravuras não só documentam a vida cotidiana dos ancestrais armênios, mas também oferecem uma visão fascinante sobre seus mitos e interações com o ambiente.
Além disso, provam, de forma irrefutável, como a Armênia possui uma das regiões habitadas mais antigas do mundo. E mais: os petróglifos armênios também desempenham um papel fundamental na compreensão da evolução da linguagem visual humana. Eles mostram como os primeiros habitantes da região desenvolveram formas de comunicação simbólica muito antes da invenção da escrita formal. Algumas dessas representações podem ser interpretadas como uma linguagem pictográfica primitiva, com padrões recorrentes que sugerem uma tentativa sistemática de transmitir informações. Também, os petróglifos podem ter servido a propósitos religiosos e ritualísticos, indicando uma profunda conexão entre arte, espiritualidade e crenças astrológicas. Com o avanço das pesquisas arqueológicas e o uso de tecnologias modernas, como a datação por carbono e a fotogrametria, novas descobertas podem trazer ainda mais luz sobre o significado e a função dessas gravuras na sociedade antiga armênia.
Gravura encontrada na Armênia