O Grande Épico Nacional Armênio: David de Sassoun

“O épico é um grande tesouro da vida e da força espiritual do povo armênio e uma prova indiscutível de sua grandeza diante do mundo.”— Hovhannes Tumanyan Como é sabido, o épico nacional de um povo não apenas retrata sua origem e trajetória histórica, mas também expressa episódios de autoconhecimento, resistência e a construção de símbolos que moldam sua identidade nacional. No caso da Armênia, esse papel é exercido pelo épico “David de Sassoun”, também conhecido como “Os Bravos de Sassoun” ou “David Sasuntsi”. Historicamente – e com razão -, este épico ocupa um lugar de destaque na tradição oral e literária da Armênia. As Origens de um Herói O épico surgiu em Sassoun, uma região montanhosa situada no planalto armênio, conhecida por seus picos Tsovasar e Maratuk. Os habitantes de Sassoun eram famosos por sua ligação com a terra e por sua perseverança. A história foi preservada por meio da tradição oral, transmitida por gerações de contadores de histórias. Uma das primeiras versões registradas foi compilada por Garegin Srvandztiants, em 1874, a partir do relato de um narrador chamado Tarontsi Krpo. Posteriormente, em 1889, Manuk Abeghyan publicou uma nova versão. Em 1939, para marcar o centenário da criação do épico, uma versão consolidada foi elaborada com base em 60 relatos e por textos compilados de estudiosos como Abeghyan, Gevorg Abov e Aram Ghanalanyan. Uma das diversas artes realizadas na Armênia retratando David de Sassoun A Estrutura do Épico O épico se divide em quatro grandes ciclos genealógicos, cada um centrado em uma geração de heróis: Sanasar e Baghdasar Mher, o Grande (Mets Mher) David de Sassoun Mher, o Pequeno (Pokr Mher) Os primeiros heróis do épico, Sanasar e Baghdasar, eram filhos de Tsovinar, a filha do rei armênio Gagik. Antes de deixar sua terra natal, Tsovinar bebe um punhado inteiro e depois meio punhado de água da fonte mágica Katnaghbyur. Do primeiro punhado de água nasceu Sanasar, grande e forte; e do segundo punhado nasceu Baghdasar, pequeno. Os irmãos crescem e se tornam fortes. Lutam contra o exército do califa de Bagdá, o derrotam e se libertam do domínio do califado. Assim, retornam à sua Sassoun natal, constroem uma fortaleza e fortalecem a cidade. Sanasar é sucedido por seu filho mais corajoso, Mher. Mets Mher também era chamado de “Mher, o Leão”, porque lutou e despedaçou com as próprias mãos um leão gigante que bloqueava o caminho até o pão. Mets Mher também derrotou Msra-Melik na luta e libertou Sassoun do pagamento de impostos. Mets Mher e sua luta contra um leão Anos depois, quando Msra-Melik morre, sua esposa, Ismil Khatun, convida Mher a governar seu país. De maneira astuta, Ismil o mantém ali por sete anos e dá à luz um filho dele, que ela chama de Melik, em homenagem ao falecido marido. Percebendo o erro, Mher retorna a Sassoun e a reconstrói. Algum tempo depois, nasce David, mas assim que é levado para casa, Mher e sua esposa morrem. As virtudes do épico atingem seu auge na figura de David, reconhecido pelo povo como o herói principal. Através dele são expressadas as ideias nobres, as emoções profundas e os desejos mais caros do povo armênio. Ele luta contra o enorme exército de Msra-Melik Júnior e o mata com um único golpe de espada. David teve apenas um filho, chamado Pokr Mher. No entanto, antes de morrer, David o amaldiçoa, já que Pokr Mher não reconhece o pai e luta contra ele. O Desfecho do Épico David amaldiçoa Mher a ser imortal e sem filhos. Pokr Mher, em substituição ao pai, luta corajosamente contra os inimigos de David e completa sua vingança. A maldição se cumpre: o último herói do épico permanece sem descendentes e se enclausura em Agravakar (Penhasco do Corvo). Assim, sem herdeiros, Pokr Mher encerra a saga do épico armênio. E, ao lado dos heróis principais, surgem diversos anciãos que auxiliam os bravos de Sassoun com seus conselhos e orientações. Características do Épico Todo épico nacional tem como tarefa central a questão da formação do Estado. Se não tratar da construção do Estado, não pode ser considerado um épico. Dessa forma, no épico armênio, o símbolo do Estado é a fortaleza. Com a construção das muralhas, Sanasar e Baghdasar lançam os alicerces da dinastia de Sassoun. Os eventos históricos retratados ocorrem durante o domínio árabe, descrevendo a luta dos habitantes de Sassoun contra os conquistadores. Alguns nomes e episódios têm base histórica. No entanto, vale lembrar que as raízes do épico armênio remontam a milênios, a uma época em que as pessoas viviam de forma simples. O épico abarca a cultura e a história do povo ao longo de diferentes períodos. Ele menciona reis, príncipes, clero e povo comum. Porém, seus modos de vida, costumes e conhecimentos eram semelhantes. Os reis mantinham relações muito próximas com o povo e os habitantes de Sassoun amavam seus governantes. A principal diferença entre eles era que uns governavam e outros obedeciam. Os heróis deste grande épico não apenas lutavam contra invasores, mas também ajudavam os camponeses nas tarefas diárias. Eram gigantes de força sobre-humana, que cresciam rapidamente. Apesar de sua força, eram bondosos, ingênuos e simples, ou seja, não eram figuras abstratas, mas pessoas comuns com qualidades e defeitos. Uma das características mais importantes de David de Sassoun como épico e tradição oral e literária é nos oferecer informações sobre a vida familiar, os costumes, a religião, as cerimônias e as crenças do povo armênio naquela época. Obra retratando a reverência que o povo tinha por David de Sassoun Paganismo no Épico No épico, há muitos elementos do paganismo armênio, como, por exemplo, o culto do fogo e, também,  da água, da luz, da terra, dos astros e dos antepassados. Os personagens Mets Mher e Pokr Mher são associados ao deus solar Mihr e as mulheres do épico possuem qualidades solares e lunares, bem como dons de feitiçaria e adivinhação. Na mitologia armênia, Sanasar e Baghdasar enfrentam um monstro que bloqueia a fonte de água, o matam