Ivan Aivazovsky, um dos maiores mestres da pintura marítima de todos os tempos, nasceu como Hovhannes Ayvazyan em 29 de julho de 1817, há exatos 208 anos, na cidade portuária de Feodosia, na Crimeia (então parte do Império Russo). Embora tenha alcançado fama internacional e reconhecimento em vários países – vários países tomam para si a sua origem –, Aivazovsky era armênio, com raízes profundas e um laço forte com a cultura e o povo da Armênia. E sua herança armênia não era apenas um detalhe de nascimento, mas uma parte essencial de sua identidade. Ao longo da vida, ele manteve um vínculo firme com suas origens, que se refletia em suas ações, em sua arte e em seu compromisso com a preservação da cultura armênia.
Origens e formação artística
Nos registros de batismo da igreja armênia apostólica local de São Sargis, Aivazovsky aparece com seu nome de batismo armênio: Hovhannes, filho de Gevorg Aivazian. Durante seus estudos na Academia Imperial de Artes, era conhecido em russo como Ivan Gaivazovsky, e, por volta de 1840, passou a assinar como Aivazovsky, especialmente após uma temporada na Itália, onde chegou a utilizar a forma italianizada “Giovani Aivazovsky”.
Seu pai, originalmente chamado Gevorg Aivazian, era um comerciante armênio oriundo da Galícia, então parte da Polônia. A família havia migrado da Armênia Ocidental para a Europa no século XVIII. Após desentendimentos familiares, ele deixou a Galícia, passou por Moldávia e Bucovina, até se estabelecer em Feodosia, no início dos anos 1800. Foi lá que adaptou seu sobrenome ao estilo eslavo, tornando-se Gaivazovsky. Já sua mãe, Ripsime, era armênia de Feodosia. O casal teve cinco filhos, entre eles Gabriel, irmão mais velho de Aivazovsky, que se destacou como historiador e arcebispo da Igreja Apostólica Armênia.
Gabriel Aivazovsky, importante historiador e religioso
Por ter nascido em uma cidade portuária, a convivência com o ambiente costeiro foi determinante para moldar a sensibilidade artística e temática de Ivan.
Seu talento foi descoberto ainda na infância, quando desenhava pelas ruas de Feodosia. O prefeito Alexander Kaznacheev e a nobre Natalia Naryshkina foram seus primeiros apoiadores, ajudando-o a ingressar, ainda adolescente, em 1833, na importante Academia Imperial de Artes de São Petersburgo, onde rapidamente se destacou e, logo, seus professores perceberam seu dom para representar paisagens marítimas com impressionante realismo e expressividade. Formou-se com medalha de ouro e recebeu uma bolsa para estudar na Europa, uma oportunidade que ampliou seu repertório artístico e consolidou sua reputação.
Retrato de Aivazovsky, feito por Alexey Tyranov em 1841
No velho continente, em 1840, sua primeira parada foi em Veneza, passando por Berlim e Viena. Em Veneza, visitou a ilha de San Lazzaro degli Armeni, sede de uma importante congregação católica armênia e onde vivia seu irmão Gabriel. Lá, teve contato direto com manuscritos armênios e aprofundou seu conhecimento sobre a arte armênia.
Recebeu uma medalha de ouro do Papa Gregório XVI e, mais tarde, outra da Academia Real de Pintura e Escultura da França. Participou de uma exposição internacional no Louvre como único representante da Rússia (já que havia nascido no Império Russo) e foi aclamado em países como Alemanha, Holanda, Reino Unido, Portugal, Espanha e Malta.
Ele retornou à Rússia em 1844, já consagrado na Europa.
Consagração e reconhecimento internacional
Embora tenha produzido retratos, cenas históricas e religiosas, foi na pintura marítima que Aivazovsky encontrou sua verdadeira linguagem. Ficou conhecido mundialmente como “o pintor do mar”, título mais do que justo para alguém capaz de capturar a luz, o movimento e a força emocional das águas com tanta maestria. Seus quadros exibem ondas em fúria, mares serenos, navios em perigo e pôr do sol dourados sobre o oceano. Seu domínio da luz e da cor é notável; mais do que ninguém, Aivazovsky sabia como usar a paleta para criar atmosferas poéticas e, muitas vezes, dramáticas.
Em 1851, acompanhou o imperador Nicolau I em uma viagem a Sevastopol, onde participou de manobras militares. Suas escavações arqueológicas nos arredores de Feodosia levaram à sua eleição como membro titular da Sociedade Geográfica Russa em 1853. No mesmo ano, com o início da Guerra da Crimeia entre o Império Russo e o Otomano, Aivazovsky foi evacuado para Kharkiv (atualmente na Ucrânia), mas logo retornou à fortaleza sitiada de Sevastopol para pintar cenas de batalha – suas obras chegaram a ser exibidas enquanto a cidade ainda estava sob cerco otomano.
Entre 1856 e 1857, trabalhou em Paris e se tornou o primeiro artista russo (e também o primeiro não francês) a receber a Legião de Honra. Em 1857, visitou Constantinopla, onde foi condecorado com a Ordem do Medjidie, e, no mesmo ano, tornou-se membro honorário da Sociedade de Arte de Moscou. Em 1859, recebeu a Ordem Grega do Redentor e, em 1865, a Ordem de São Vladimir, da Rússia.
Ainda em 1865, abriu um ateliê de arte em Feodosia e passou a receber um salário da Academia Imperial de Artes.
Obra “A Captura de Sevastopol”, pintada por Ivan Aivazovsky em 1855
A fama de Aivazovsky ultrapassou fronteiras. Ainda em vida, ele teve suas obras exibidas e elogiadas em cidades como Paris, Roma, Londres, Amsterdã e Constantinopla. Foi admirado por líderes, aristocratas e intelectuais da Europa. Em 1847, foi nomeado pintor oficial da Marinha Imperial Russa, o que lhe deu acesso a navios, portos e batalhas navais que inspiraram muitas de suas telas.
Recebeu condecorações de vários países europeus, incluindo a França, a Itália e a Prússia. Suas obras eram compradas por museus, colecionadores e nobres. Mas, independentemente do prestígio internacional, nunca deixou de lado a Armênia, que ele considerava sua pátria espiritual, e Feodosia, sua cidade natal, onde fundou uma escola de artes e uma galeria, que mais tarde se tornaria o Museu Aivazovsky, ainda hoje uma das principais referências sobre sua vida e obra.
Obra “A Nona Onda”, sua mais famosa, pintada em 1850
Ligação com a Armênia
Apesar de sua carreira internacional e da popularidade que alcançou em diversas cortes europeias, Aivazovsky manteve a Armênia no centro de sua identidade pessoal e artística. Ele não apenas se orgulhava de ser armênio, como fazia questão de demonstrar isso.
Em 1845, durante uma viagem à região histórica da Armênia, Aivazovsky ficou profundamente emocionado com a espiritualidade das paisagens e com a conexão ancestral que sentia com aquele território. A experiência foi tão impactante que ele começou a retratar com frequência o Monte Ararat, símbolo eterno da cultura e da fé armênias. Essa presença simbólica aparece em diversas de suas obras, mesmo aquelas que não tinham, à primeira vista, um tema diretamente ligado à Armênia.
Além da arte, Aivazovsky foi um importante benfeitor da comunidade armênia. Em sua cidade natal, Feodosia, ajudou a construir uma igreja armênia, escolas e instituições culturais para preservar a herança de seu povo. Também colaborou com projetos em outras partes do mundo onde viviam comunidades armênias, fortalecendo os laços entre a diáspora e a terra ancestral.
Seu envolvimento com causas armênias não era apenas cultural, mas também político e humanitário. Durante os Massacres Hamadianos de armênios no Império Otomano, no fim do século XIX, Aivazovsky fez questão de expressar publicamente sua indignação. Sofreu por vários dias com a morte de mais de 150.000 armênios e, como forma de protesto, pendurou ordens turcas em seu cachorro Rex e foi passear em Feodosia. Ao chegar próximo ao mar, jogou as condecorações que havia recebido do sultão turco, um gesto corajoso e simbólico de solidariedade ao seu povo.
Assinatura em armênio de Ivan Aivazovsky
Aivazovsky faleceu em 19 de abril (2 de maio pelo calendário atual) de 1900, em Feodosia. Conforme seu desejo, foi sepultado no pátio da Igreja Armênia de São Sargis. Em 1901, o escultor italiano L. Biogiolli criou seu sarcófago de mármore branco. Em sua lápide, está gravada uma citação em armênio clássico retirada da História da Armênia, de Movses Khorenatsi: “Nasceu mortal, deixou uma lembrança imortal. (Մահկանացու ծնեալ անմահ զիւրն յիշատակ եթող)”
Lápide em armênio e russo de Ivan Aivazovsky
Legado
O legado de Ivan Aivazovsky transcende a arte. Ele é lembrado não apenas como um dos maiores pintores da história, mas também como um símbolo da cultura armênia, alguém que soube honrar suas raízes mesmo quando alcançou fama mundial.
Hoje, suas obras estão expostas em importantes museus como o Hermitage, a Galeria Tretyakov, o Museu Nacional de Arte da Armênia (em Yerevan), o Louvre e outras instituições. A Galeria Aivazovsky, em Feodosia, abriga a maior coleção de suas pinturas, atraindo estudiosos e admiradores de todo o mundo.
Na Armênia, seu nome é reverenciado. Há ruas, escolas e centros culturais que levam seu nome. Exposições são organizadas frequentemente para celebrar sua obra. Em Gyumri, uma das principais cidades armênias, foi inaugurada em 2023 uma estátua em sua homenagem, ressaltando sua importância como embaixador cultural da nação armênia.
