Khaz, o sistema de notação musical armênio

A Armênia é um país rico em mistérios culturais, e um deles é o sistema de notação musical conhecido como khaz. Trata-se de uma forma antiga de neuma, que é o elemento básico dos sistemas de notação musical usados no ocidente e em algumas tradições orientais antes da invenção da pauta de cinco linhas. Usada para registrar a música religiosa medieval da Igreja Apostólica Armênia, a notação khaz guarda semelhanças com os neumas, mas é totalmente distinta em forma, significado e nomenclatura. Cada símbolo indica se a melodia sobe ou desce, além de oferecer detalhes rítmicos e expressivos, como intensidade vocal, duração, ornamentos e a “cor” da linha melódica. Origens e desenvolvimento Acredita-se que o sistema khaz tenha sido desenvolvido entre os séculos VII e IX, possivelmente atribuído ao poeta e cientista Stepanos Syunetsi (688 – 735) – a família de Syunetsi é marcante na história armênia, já que sua irmã Sahakdukht é considerada a primeira compositora da Armênia. Durante os primeiros séculos, a música litúrgica armênia era transmitida basicamente de forma oral. Com o tempo, especialmente entre os séculos VIII e XII, a notação khaz se tornou mais comum nas igrejas e foi amplamente adotada nas comunidades monásticas. No Reino Armênio da Cilícia (séculos XII–XIV), essa notação floresceu, desenvolvendo três estilos principais de escrita e criando diversos livros de cânticos com khazes. Exemplo de khaz do século XII Estrutura A notação khaz não utiliza pautas como a música ocidental moderna. Os sinais eram escritos acima da linha das palavras ou em cima da sílaba se houvesse um ou dois khazes por sílaba; quando muitas figuras eram necessárias, passavam por cima da linha. Cada khaz era um marcador leve, indicando direção melódica (ascendente ou descendente), ornamentação e ritmo, mas não especificava nota absoluta, funcionando, assim, como auxílio mnemônico para cantos transmitidos oralmente. Os khazes também incluíam marcas que se relacionavam à pontuação do idioma armênio, consonantes e semivogais da escrita, usadas como notas musicais adicionais. A quantidade, forma, nome e significado dos khazes mudaram ao longo dos séculos, e muitos foram absorvidos pela notação reformada do século XIX.Porém, com o passar do tempo, especialmente a partir do século XVI, a notação khaz tornou-se tão complexa que muitos músicos da igreja passaram a não entendê-la. O grande número de símbolos e convenções tornou sua aplicação prática muito difícil. No século XVIII e início do XIX, a leitura dos khazes se tornou quase impossível para a maioria dos praticantes, o que gradualmente encerrou seu uso. O sistema de notação khaz Uma nova notação e renascimento do khaz No início do século XIX, surgiu um novo sistema de notação mais simples e acessível, idealizado por Hampartsoum Limondjian (1768–1839), compositor e teórico armênio que viveu em Constantinopla. Entre 1813 e 1815, ele criou a notação Hamparsum, que consistia em cerca de 45 sinais neumáticos – ainda neumas, mas não dependiam da pauta ocidental. A melodia era escrita entre as linhas dos versos poéticos, tornando possível entoar o texto diretamente com a música. Importante salientar que a criação de Limondjian serviu para a música armênia e também para a turca. A notação de Limondjian manteve elementos dos khazes, mas foi muito mais simples de ensinar e aplicar. Tornou-se amplamente utilizada nas liturgias e no registro de músicas folclóricas armênias e otomanas e prosseguiu em uso na Igreja Apostólica Armênia ao longo do século XIX e até parte do século XX. Exemplo de notação Hamparsum Embora uma nova notação havia surgido, os estudos sobre a antiga notação khaz ganharam novo fôlego graças ao trabalho do gênio Komitas Vardapet (Soghomon Soghomonian), um dos maiores nomes da música armênia, no final do século XIX e início do XX. Komitas era padre, compositor, cantor e etnomusicólogo e seu interesse pela cultura popular e litúrgica da Armênia o levou a viajar por diversas regiões recolhendo canções folclóricas e analisando manuscritos antigos. Embora utilizasse a notação de Limondjian para transcrever a música que coletava, Komitas dedicou-se com afinco à decifração do sistema khaz. Estava convencido de que, para entender plenamente os khazes, seria necessário combinar conhecimentos de música com o domínio de idiomas como o árabe, o turco e o persa, além de ter familiaridade com ciências como a matemática, a fonética e a linguística comparada. Seu trabalho foi interrompido tragicamente pelo Genocídio Armênio de 1915, mas sua contribuição permaneceu como uma das mais valiosas do século XX para a preservação do patrimônio musical da Armênia. Komitas sendo retratado em uma pintura utilizando a notação armênia Outros estudiosos continuaram essa missão, entre eles Robert At’ayan e Nikoghos Tahmizian, que dedicaram décadas ao estudo e à sistematização da notação khaz. Tahmizian, por exemplo, publicou análises detalhadas dos símbolos e buscou interpretá-los em contexto musical e litúrgico. Seus trabalhos continuam sendo referência para pesquisadores da área. Legado A importância histórica do sistema khaz vai além de sua função como notação musical. Ele representa uma forma autônoma e profundamente espiritual de transmitir cultura e fé por meio da música. Mesmo que seu uso prático tenha cessado há séculos, seu legado se mantém vivo na tradição oral, nos manuscritos preservados em bibliotecas e mosteiros armênios e nos estudos acadêmicos contemporâneos. A notação moderna criada por Limondjian, com inspiração no khaz, ainda é ensinada em instituições como a Conservatória Estatal de Yerevan e o Seminário Gevorgian, sendo parte fundamental do estudo da música litúrgica e folclórica armênia. Graças a ela, milhares de cânticos religiosos, os chamados sharakans, foram registrados e preservados. Hoje, estudiosos continuam explorando os khazes com novas ferramentas. A digitalização de manuscritos, o uso de inteligência artificial e o cruzamento com tradições musicais próximas podem, no futuro, trazer novas descobertas sobre esse sistema milenar. Cada khaz preservado em pergaminhos e códices antigos é um elo entre o presente e a alma musical da Armênia medieval. Mais do que uma curiosidade histórica, o khaz é um testemunho da riqueza e da sofisticação da cultura armênia, um povo que conseguiu preservar e reinventar sua identidade através da arte, da música e da fé. Khaz, com caligrafia de Ruben