AGBU FOCUS 2025 em Yerevan

De 16 a 20 de julho, foi realizado o AGBU Focus 2025, o maior encontro de jovens armênios do mundo. Realizado pela primeira vez na Armenia, o evento reuniu 600 jovens profissionais de 28 países, da Argentina ao Canadá, da China ao Egito, entre outros países que possuem diáspora armênia. O Brasil, como não poderia deixar de ser, esteve representado pelo presidente da UGAB Brasil, Avedis Markossian, pelos jovens Carol Tchakherian e André Abrahamian – que fizeram um trabalho incrível no projeto Arménie, Terre de Vie –; além de ter as presenças de Haig Apovian, Carla Danielian e Mariana Papazian. Carol Tchakherian, o presidente da UGAB Brasil Avedis Markossian, e André Abrahamian O FOCUS tem como objetivo principal unir jovens profissionais armênios a partir de seus interesses e perspectivas compartilhados. Nas palavras de Christina Lalama-Nappi, diretora global do AGBU Young Professionals (YP): “O conceito do FOCUS é único porque é pensado para jovens profissionais e organizado e realizado por eles. Desde seu lançamento em 2001, um grupo local de Jovens Profissionais (YP) assume a liderança em escala global, com a orientação do Escritório Central da UGAB. É uma oportunidade excepcional para desenvolver confiança e habilidades organizacionais, ao mesmo tempo em que elaboram uma agenda que projeta suas próprias sensibilidades, preocupações e aspirações para o mundo.” Como resultado, cada edição do FOCUS tem contribuído para fortalecer a rede global de Jovens Profissionais da UGAB. O número crescente de participantes celebra o patrimônio cultural e a identidade armênia, encontrando um propósito comum por meio de campanhas globais de arrecadação de fundos. Este ano, foram arrecadados mais de 180 mil dólares em apoio ao Programa de Bolsas de Estudo da UGAB. Muitos participantes — alguns visitando a Armênia pela primeira vez — se mergulharam na cena de Yerevan, conhecendo iniciativas da UGAB no país, interagindo com beneficiários dos programas, participando de ações comunitárias, explorando o patrimônio cultural armênio e trocando perspectivas sobre as relações Armênia-Diáspora após 34 anos de independência do país. Uma recepção calorosa O primeiro dia começou com uma recepção na sede da UGAB Yerevan, onde os participantes foram recebidos pelo presidente Vasken Yacoubian, pela diretora-executiva Marina Mkhitaryan e pelo presidente do YP Yerevan, Haykaz Nahapetyan, além da presença de uma equipe internacional, que ajudaram na realização do evento. Parte dos participantes do FOCUS na recepção organizada na sede da UGAB Armênia Em sua fala de abertura, o presidente Vasken Yacoubian incentivou os participantes a fortalecer conexões e propor projetos para uma Armênia mais forte, lembrando que “com uma Armênia forte — um país profundamente enraizado na história e guardião da nossa identidade — teremos uma diáspora forte e uma nação da qual todos nos orgulhamos; então, vamos fazer história juntos com criatividade, coragem e união, pois na união que está a força”. Na abertura, a programação incluiu apresentação de dança tradicional, oficinas de dança, exploração de Yerevan com visitas à Assembleia Nacional, galerias, cinema, fábrica de relógios e pontos turísticos, além de um encontro com o prefeito Tigran Avinyan. Grupo de danças tradicionais armênias no pátio da UGAB Armênia Visita a Etchmiadzin A Reunião Executiva do YP, com mais de 60 participantes, ocorreu na Santa Sede de Etchmiadzin. O encontro abordou formas de tornar as atividades do YP mais eficientes e inclusivas, tanto administrativamente quanto ideologicamente, promovendo maior sinergia entre os grupos YP e suas comunidades. A reunião foi seguida de uma audiência privada com Sua Santidade Karekin II, Patriarca Supremo e Catholicos de Todos os Armênios, acompanhado pelo Arcebispo Nathan Hovhannisian e moderado por Vasken Yacoubian. Sua Santidade refletiu sobre a longa relação entre a Igreja e a UGAB, destacando o papel significativo da organização em apoiar tanto a diáspora quanto Etchmiadzin. Ele expressou ainda a esperança de que a visita inspire os jovens a se comprometerem mais com os valores nacionais e tradições espirituais, fortalecendo o Estado e a identidade armênia. O Catholicos também respondeu a perguntas sobre o envolvimento da juventude na vida da Igreja, a formação e serviço do clero e os desafios atuais do país. Paralelamente, um grupo de 150 participantes do FOCUS conheceu em Etchmiadzin tesouros nacionais e religiosos e tomaram contato com as contribuições da UGAB incluindo a renovação da Antiga Residência Pontifical e a fundação do Museu do Tesouro Alex e Marie Manoogian. Membros do YP em encontro comSua Santidade Karekin II, Patriarca Supremo e Catholicos de Todos os Armênios Abertura oficial O evento oficial de abertura no FOCUS contou com o painel Perspectivas, com palestrantes internacionais abordando o tema Entre Dois Mundos: Unindo Perspectivas, Moldando o Futuro. A conferência ocorreu no histórico Museu Komitas em Yerevan, com a participação de Kristina Ayanian, produtora executiva e líder de experiência do cliente na NASDAQ (Nova York, EUA); Levon Grigorian, presidente do YP Barcelona e parceiro de Banking & Finance na Crowe (Barcelona, Espanha); o egiptólogo Arto Belekdanian (Cairo, Egito); e o renomado artista de retratos Tigran Tsitoghdzyan (Nova York). Moderados pelo especialista em comunicação Alexander Plato Hakobyan (Yerevan, Armênia), os debatedores exploraram os significados evolutivos da identidade armênia, como a diáspora navega entre cidadania e etnia, o que define contribuições construtivas à pátria e como aproveitar o enorme potencial das comunidades diversas para gerar impacto sustentável. O painel se estendeu ao belo parque do Museu Komitas, em que os participantes – acompanhados de vinho armênio – assistiram a uma apresentação do ART ALIVE, que transforma obras do artista armênio Minas Avetisyan e do artista franco-armênio Jean Carzou em um show interativo de dança. Os debatedores Alexander Hakopyan, Kristina Ayanian, Levon Grigorian, Arto Belekdanian e Tigran Tsitoghdzyan Dia de ajuda ao próximo Em 17 de julho, o dia começou com a apresentação do trabalho e impacto da UGAB na Armênia. Na sequência, os participantes conheceram os resultados desses esforços na AGBU Mentorship Expo (Feira de Mentoria da UGAB), com destaque para os beneficiários dos programas AGBU Women Entrepreneurs (WE – Empreendedoras da UGAB), Women Coders (Programadoras), LEAP (Aprender para Prosperar Artsakh) e mentores de negócios da UGAB. O evento também promoveu troca de ideias
Gampr: o cão guardião da Armênia

Em meio às paisagens do planalto armênio, existe um guardião silencioso, mas imponente: o cão Gampr. Criado durante milênios para proteger rebanhos, famílias e territórios, o Gampr não é apenas uma raça de cão; ele é um símbolo vivo da identidade armênia. O imponente Gampr Origens de uma raça única Os armênios costumavam cruzar lobos com cães para produzir os cães Gampr e, assim, criaram animais confiáveis, poderosos e extremamente leais aos seus donos, chegando a protegê-los com a própria vida. Quando o Gampr percebe algo ou alguém suspeito, ele imediatamente alerta os outros cães, e juntos eles cercam o rebanho e partem para o ataque ao intruso. A primeira atitude que se deve ter ao se aproximar desses cães é cumprimentar o dono e conversar com ele, para que o Gampr entenda que você não representa ameaça. Gampr, a raça típica armênia Seu nome tem origem na palavra armênia “գամփր”, que significa algo como “grande”, “forte” ou “fortaleza viva”. Com raízes que remontam à antiguidade – as primeiras imagens do Gampr podem ser vistas em moedas da época do Rei Artashes I (entre 189 a.C. e 160 a.C.) –, esses cães foram desenvolvidos por pastores armênios para proteger o gado contra predadores como lobos, ursos e até invasores humanos. Ao longo dos séculos, sua criação foi orientada mais pela função do que pela aparência. Os cães que melhor desempenhavam seu papel de guardiões sobreviviam e eram usados na reprodução, o que resultou numa raça incrivelmente eficaz, equilibrada e inteligente, apesar de seu tamanho e peso: entre 40 a 70 quilos, com altura mínima para machos de 67 cm, enquanto para fêmeas é de 63 cm – em alguns casos, chegando entre 77 cm e 71 cm, respectivamente. Gampr cuidando de um rebanho O Gampr é um cão de grande porte, com a cabeça larga, o focinho relativamente curto, peito profundo e pernas musculosas, que o tornam ágil mesmo em terrenos acidentados. Sua pelagem é espessa e resistente ao clima, algo essencial para os invernos rigorosos das montanhas armênias. Embora haja variações de cor e tipo de pelo (curto ou mais longo), todos os exemplares compartilham o mesmo olhar atento, desconfiado e sereno, características essas de um cão que observa antes de agir. Ele não late à toa e raramente se deixa levar pela agitação. Mas quando percebe uma ameaça real, age com precisão e coragem. O amor dos armênios por cães A reverência dos armênios aos cães não é apenas prática, mas também mítica. Na mitologia armênia pagã, existiam criaturas conhecidas como Aralezes, que eram seres divinos com aparência de cães, que desciam do céu ou do Monte Ararat para lamber as feridas dos guerreiros mortos e trazê-los de volta à vida. Um dos relatos mais famosos dessa crença aparece no livro História da Armênia, escrito por Movses Khorenatsi, o historiador nacional armênio do século V. Ele narra que, após a morte do lendário rei Ara, o Belo, a rainha assíria Semíramis recusou-se a aceitar sua perda. Ordenou então que o corpo fosse levado até os Aralezes, que lamberam suas feridas e o ressuscitaram. Esse mito é uma poderosa ilustração do respeito que os armênios antigos tinham pelos cães. Eles eram criaturas vistas não apenas como protetores da vida, mas também como guardiões da alma. Ilustração retratando um Aralezes A veneração aos cães em tempos antigos também se manifestava em rituais funerários. Em diversas tumbas antigas encontradas na região da Armênia histórica, arqueólogos descobriram cães enterrados ao lado de seus donos. O corpo humano era colocado no centro da sepultura, e os cães eram posicionados nas laterais, voltados para o rosto de seu mestre. Esses rituais sugerem uma crença segundo a qual o cão acompanhava o falecido até o outro mundo. Para garantir sua benevolência, colocava-se uma moeda na boca do morto como forma de pagamento ou presente para o cão, que decidia se o espírito merecia um bom destino após a morte. Essas tradições reforçam a importância simbólica e espiritual dos cães na cultura armênia antiga. Não eram apenas animais úteis, mas mediadores entre o mundo dos vivos e o além. Um tesouro ameaçado Infelizmente, o Gampr também enfrentou períodos de negligência e até extinção parcial. Durante o século XX, guerras, deslocamentos e a modernização das práticas agrícolas fizeram com que muitos Gamprs desaparecessem ou fossem cruzados indiscriminadamente com outras raças. Nos últimos anos, no entanto, têm surgido esforços de criadores e instituições na Armênia e na diáspora para preservar a pureza genética do Gampr e reconhecê-lo como patrimônio nacional. Há inclusive projetos de registro internacional da raça e programas de proteção em áreas rurais. É essencial lembrar que o Gampr, por mais magnífico que seja, não é um cão urbano ou de apartamento. Ele precisa de espaço, liberdade, propósito. Criado para o campo e para a guarda, ele se sente mais realizado quando tem algo a proteger. Mais do que um simples animal de trabalho, o Gampr é um reflexo da própria Armênia; sua história está entrelaçada com a do povo que o criou, alimentou e confiou a ele o que havia de mais precioso: suas famílias, seus rebanhos, sua terra.
Gato de Van: um tesouro da natureza armênia

O gato de Van é uma raça rara e única, considerada endêmica da região do planalto armênio, especialmente nas proximidades do Lago Van (atualmente na Turquia). Com seu corpo alongado, musculoso e seus movimentos elegantes, este gato é admirado há séculos, e não apenas por sua beleza, mas também por sua personalidade marcante e sua ligação com a história e a cultura armênia. O belo gato de Van, raça típica armênia Elegância e coragem O corpo do gato de Van é forte e bem desenvolvido. Ele caminha com a graça de um tigre, ostentando um peito largo, típico de animais adaptados à natação. A parte traseira do corpo se estreita em direção à cauda, que é longa, volumosa e lembra a de uma raposa. Os olhos podem ser azuis ou âmbar (cobre) e, em muitos casos, um de cada cor. É comum pensar que os gatos de Van “verdadeiros” devem ter olhos de cores diferentes, mas isso é apenas um mito: o importante é que eles nunca têm olhos verdes ou amarelos. Embora, curiosamente, filhotes dessa raça nascem com os olhos castanhos, que só começam a mudar de cor por volta do 25º dia de vida. Além dos olho, uma das características mais marcantes do gato de Van é sua pelagem: espessa, branca e impermeável, completamente adaptada ao frio intenso da região montanhosa. Além da cor branca predominante, eles apresentam manchas ruivas, especialmente na cabeça e na lateral esquerda do corpo. Gato de Van e seus olhos característicos E diferente da maioria dos felinos, os gatos de Van não têm medo de água. Pelo contrário: são conhecidos por sua paixão por nadar. Há séculos, caçam peixes no Lago Van – mesmo durante o inverno, quando as temperaturas podem chegar a impressionantes -35 °C! – e eles são tão sensíveis que conseguem medir a temperatura do alimento com a pata antes de comer. Gato de Van e uma de suas grandes habilidades: a natação Além de peixes, também caçam ratos, lagartos, pássaros e insetos. E têm um gosto incomum: gostam de algumas frutas, como melancia e melão. Agora, como todos os gatos, o gato de Van é independente e carismático; mais do que isso, é curioso e imprevisível. Caso mude de ambiente, demora cerca de 20 a 30 dias para se adaptar a um novo local. Sua temporada de acasalamento vai de fevereiro a março, e eles têm instintos muito afiados, tanto para caça quanto para comunicação. Lenda e simbologia Uma antiga lenda explica as manchas ruivas em sua cabeça e cauda: ao nadar no Lago Van, apenas essas partes do corpo ficaram acima da superfície da água. Assim, o sol teria queimado a pele nessas áreas, deixando uma marca para sempre. Essa história ajuda a ilustrar a ligação profunda entre o povo armênio e os gatos de Van. Na época do Reino de Urartu, gatos já eram valorizados como caçadores de roedores. Eles eram levados para os celeiros para manter os grãos protegidos dos ratos. Com o tempo, se tornaram animais de estimação e, mais do que isso, verdadeiros símbolos culturais. Escavações arqueológicas na região revelaram joias antigas com figuras de grandes gatos brancos, com caudas marcadas por padrões circulares, sendo uma provável representação dos gatos de Van. O sistema de notação khaz Após o Genocídio Armênio e o deslocamento forçado de populações, a Turquia passou a reivindicar o gato de Van como parte de sua herança cultural. Em 1987, foi fundado um centro de pesquisa para estudar e preservar a raça. No entanto, relatos indicam que, em vez de proteger os gatos, o centro promoveu cruzamentos com outras raças, como o gato angorá, o que comprometeu a pureza genética dos gatos de Van e os colocou em risco de extinção. Hoje, felizmente, existem esforços para preservar a raça em diversos países, incluindo a própria Armênia, onde há um movimento crescente para reconhecer o gato de Van como patrimônio nacional armênio. Selo postal armênio homenageando o gato de Van Essa raça representa uma combinação rara de beleza, inteligência e conexão histórica com a Armênia; mais que um animal encantador, é um sobrevivente e símbolo de uma cultura milenar que resiste ao tempo!
Khaz, o sistema de notação musical armênio

A Armênia é um país rico em mistérios culturais, e um deles é o sistema de notação musical conhecido como khaz. Trata-se de uma forma antiga de neuma, que é o elemento básico dos sistemas de notação musical usados no ocidente e em algumas tradições orientais antes da invenção da pauta de cinco linhas. Usada para registrar a música religiosa medieval da Igreja Apostólica Armênia, a notação khaz guarda semelhanças com os neumas, mas é totalmente distinta em forma, significado e nomenclatura. Cada símbolo indica se a melodia sobe ou desce, além de oferecer detalhes rítmicos e expressivos, como intensidade vocal, duração, ornamentos e a “cor” da linha melódica. Origens e desenvolvimento Acredita-se que o sistema khaz tenha sido desenvolvido entre os séculos VII e IX, possivelmente atribuído ao poeta e cientista Stepanos Syunetsi (688 – 735) – a família de Syunetsi é marcante na história armênia, já que sua irmã Sahakdukht é considerada a primeira compositora da Armênia. Durante os primeiros séculos, a música litúrgica armênia era transmitida basicamente de forma oral. Com o tempo, especialmente entre os séculos VIII e XII, a notação khaz se tornou mais comum nas igrejas e foi amplamente adotada nas comunidades monásticas. No Reino Armênio da Cilícia (séculos XII–XIV), essa notação floresceu, desenvolvendo três estilos principais de escrita e criando diversos livros de cânticos com khazes. Exemplo de khaz do século XII Estrutura A notação khaz não utiliza pautas como a música ocidental moderna. Os sinais eram escritos acima da linha das palavras ou em cima da sílaba se houvesse um ou dois khazes por sílaba; quando muitas figuras eram necessárias, passavam por cima da linha. Cada khaz era um marcador leve, indicando direção melódica (ascendente ou descendente), ornamentação e ritmo, mas não especificava nota absoluta, funcionando, assim, como auxílio mnemônico para cantos transmitidos oralmente. Os khazes também incluíam marcas que se relacionavam à pontuação do idioma armênio, consonantes e semivogais da escrita, usadas como notas musicais adicionais. A quantidade, forma, nome e significado dos khazes mudaram ao longo dos séculos, e muitos foram absorvidos pela notação reformada do século XIX.Porém, com o passar do tempo, especialmente a partir do século XVI, a notação khaz tornou-se tão complexa que muitos músicos da igreja passaram a não entendê-la. O grande número de símbolos e convenções tornou sua aplicação prática muito difícil. No século XVIII e início do XIX, a leitura dos khazes se tornou quase impossível para a maioria dos praticantes, o que gradualmente encerrou seu uso. O sistema de notação khaz Uma nova notação e renascimento do khaz No início do século XIX, surgiu um novo sistema de notação mais simples e acessível, idealizado por Hampartsoum Limondjian (1768–1839), compositor e teórico armênio que viveu em Constantinopla. Entre 1813 e 1815, ele criou a notação Hamparsum, que consistia em cerca de 45 sinais neumáticos – ainda neumas, mas não dependiam da pauta ocidental. A melodia era escrita entre as linhas dos versos poéticos, tornando possível entoar o texto diretamente com a música. Importante salientar que a criação de Limondjian serviu para a música armênia e também para a turca. A notação de Limondjian manteve elementos dos khazes, mas foi muito mais simples de ensinar e aplicar. Tornou-se amplamente utilizada nas liturgias e no registro de músicas folclóricas armênias e otomanas e prosseguiu em uso na Igreja Apostólica Armênia ao longo do século XIX e até parte do século XX. Exemplo de notação Hamparsum Embora uma nova notação havia surgido, os estudos sobre a antiga notação khaz ganharam novo fôlego graças ao trabalho do gênio Komitas Vardapet (Soghomon Soghomonian), um dos maiores nomes da música armênia, no final do século XIX e início do XX. Komitas era padre, compositor, cantor e etnomusicólogo e seu interesse pela cultura popular e litúrgica da Armênia o levou a viajar por diversas regiões recolhendo canções folclóricas e analisando manuscritos antigos. Embora utilizasse a notação de Limondjian para transcrever a música que coletava, Komitas dedicou-se com afinco à decifração do sistema khaz. Estava convencido de que, para entender plenamente os khazes, seria necessário combinar conhecimentos de música com o domínio de idiomas como o árabe, o turco e o persa, além de ter familiaridade com ciências como a matemática, a fonética e a linguística comparada. Seu trabalho foi interrompido tragicamente pelo Genocídio Armênio de 1915, mas sua contribuição permaneceu como uma das mais valiosas do século XX para a preservação do patrimônio musical da Armênia. Komitas sendo retratado em uma pintura utilizando a notação armênia Outros estudiosos continuaram essa missão, entre eles Robert At’ayan e Nikoghos Tahmizian, que dedicaram décadas ao estudo e à sistematização da notação khaz. Tahmizian, por exemplo, publicou análises detalhadas dos símbolos e buscou interpretá-los em contexto musical e litúrgico. Seus trabalhos continuam sendo referência para pesquisadores da área. Legado A importância histórica do sistema khaz vai além de sua função como notação musical. Ele representa uma forma autônoma e profundamente espiritual de transmitir cultura e fé por meio da música. Mesmo que seu uso prático tenha cessado há séculos, seu legado se mantém vivo na tradição oral, nos manuscritos preservados em bibliotecas e mosteiros armênios e nos estudos acadêmicos contemporâneos. A notação moderna criada por Limondjian, com inspiração no khaz, ainda é ensinada em instituições como a Conservatória Estatal de Yerevan e o Seminário Gevorgian, sendo parte fundamental do estudo da música litúrgica e folclórica armênia. Graças a ela, milhares de cânticos religiosos, os chamados sharakans, foram registrados e preservados. Hoje, estudiosos continuam explorando os khazes com novas ferramentas. A digitalização de manuscritos, o uso de inteligência artificial e o cruzamento com tradições musicais próximas podem, no futuro, trazer novas descobertas sobre esse sistema milenar. Cada khaz preservado em pergaminhos e códices antigos é um elo entre o presente e a alma musical da Armênia medieval. Mais do que uma curiosidade histórica, o khaz é um testemunho da riqueza e da sofisticação da cultura armênia, um povo que conseguiu preservar e reinventar sua identidade através da arte, da música e da fé. Khaz, com caligrafia de Ruben
Ivan Aivazovsky: gênio do mar e orgulho do povo armênio

Ivan Aivazovsky, um dos maiores mestres da pintura marítima de todos os tempos, nasceu como Hovhannes Ayvazyan em 29 de julho de 1817, há exatos 208 anos, na cidade portuária de Feodosia, na Crimeia (então parte do Império Russo). Embora tenha alcançado fama internacional e reconhecimento em vários países – vários países tomam para si a sua origem –, Aivazovsky era armênio, com raízes profundas e um laço forte com a cultura e o povo da Armênia. E sua herança armênia não era apenas um detalhe de nascimento, mas uma parte essencial de sua identidade. Ao longo da vida, ele manteve um vínculo firme com suas origens, que se refletia em suas ações, em sua arte e em seu compromisso com a preservação da cultura armênia. Origens e formação artística Nos registros de batismo da igreja armênia apostólica local de São Sargis, Aivazovsky aparece com seu nome de batismo armênio: Hovhannes, filho de Gevorg Aivazian. Durante seus estudos na Academia Imperial de Artes, era conhecido em russo como Ivan Gaivazovsky, e, por volta de 1840, passou a assinar como Aivazovsky, especialmente após uma temporada na Itália, onde chegou a utilizar a forma italianizada “Giovani Aivazovsky”. Seu pai, originalmente chamado Gevorg Aivazian, era um comerciante armênio oriundo da Galícia, então parte da Polônia. A família havia migrado da Armênia Ocidental para a Europa no século XVIII. Após desentendimentos familiares, ele deixou a Galícia, passou por Moldávia e Bucovina, até se estabelecer em Feodosia, no início dos anos 1800. Foi lá que adaptou seu sobrenome ao estilo eslavo, tornando-se Gaivazovsky. Já sua mãe, Ripsime, era armênia de Feodosia. O casal teve cinco filhos, entre eles Gabriel, irmão mais velho de Aivazovsky, que se destacou como historiador e arcebispo da Igreja Apostólica Armênia. Gabriel Aivazovsky, importante historiador e religioso Por ter nascido em uma cidade portuária, a convivência com o ambiente costeiro foi determinante para moldar a sensibilidade artística e temática de Ivan. Seu talento foi descoberto ainda na infância, quando desenhava pelas ruas de Feodosia. O prefeito Alexander Kaznacheev e a nobre Natalia Naryshkina foram seus primeiros apoiadores, ajudando-o a ingressar, ainda adolescente, em 1833, na importante Academia Imperial de Artes de São Petersburgo, onde rapidamente se destacou e, logo, seus professores perceberam seu dom para representar paisagens marítimas com impressionante realismo e expressividade. Formou-se com medalha de ouro e recebeu uma bolsa para estudar na Europa, uma oportunidade que ampliou seu repertório artístico e consolidou sua reputação. Retrato de Aivazovsky, feito por Alexey Tyranov em 1841 No velho continente, em 1840, sua primeira parada foi em Veneza, passando por Berlim e Viena. Em Veneza, visitou a ilha de San Lazzaro degli Armeni, sede de uma importante congregação católica armênia e onde vivia seu irmão Gabriel. Lá, teve contato direto com manuscritos armênios e aprofundou seu conhecimento sobre a arte armênia. Recebeu uma medalha de ouro do Papa Gregório XVI e, mais tarde, outra da Academia Real de Pintura e Escultura da França. Participou de uma exposição internacional no Louvre como único representante da Rússia (já que havia nascido no Império Russo) e foi aclamado em países como Alemanha, Holanda, Reino Unido, Portugal, Espanha e Malta. Ele retornou à Rússia em 1844, já consagrado na Europa. Consagração e reconhecimento internacional Embora tenha produzido retratos, cenas históricas e religiosas, foi na pintura marítima que Aivazovsky encontrou sua verdadeira linguagem. Ficou conhecido mundialmente como “o pintor do mar”, título mais do que justo para alguém capaz de capturar a luz, o movimento e a força emocional das águas com tanta maestria. Seus quadros exibem ondas em fúria, mares serenos, navios em perigo e pôr do sol dourados sobre o oceano. Seu domínio da luz e da cor é notável; mais do que ninguém, Aivazovsky sabia como usar a paleta para criar atmosferas poéticas e, muitas vezes, dramáticas. Em 1851, acompanhou o imperador Nicolau I em uma viagem a Sevastopol, onde participou de manobras militares. Suas escavações arqueológicas nos arredores de Feodosia levaram à sua eleição como membro titular da Sociedade Geográfica Russa em 1853. No mesmo ano, com o início da Guerra da Crimeia entre o Império Russo e o Otomano, Aivazovsky foi evacuado para Kharkiv (atualmente na Ucrânia), mas logo retornou à fortaleza sitiada de Sevastopol para pintar cenas de batalha – suas obras chegaram a ser exibidas enquanto a cidade ainda estava sob cerco otomano. Entre 1856 e 1857, trabalhou em Paris e se tornou o primeiro artista russo (e também o primeiro não francês) a receber a Legião de Honra. Em 1857, visitou Constantinopla, onde foi condecorado com a Ordem do Medjidie, e, no mesmo ano, tornou-se membro honorário da Sociedade de Arte de Moscou. Em 1859, recebeu a Ordem Grega do Redentor e, em 1865, a Ordem de São Vladimir, da Rússia. Ainda em 1865, abriu um ateliê de arte em Feodosia e passou a receber um salário da Academia Imperial de Artes. Obra “A Captura de Sevastopol”, pintada por Ivan Aivazovsky em 1855 A fama de Aivazovsky ultrapassou fronteiras. Ainda em vida, ele teve suas obras exibidas e elogiadas em cidades como Paris, Roma, Londres, Amsterdã e Constantinopla. Foi admirado por líderes, aristocratas e intelectuais da Europa. Em 1847, foi nomeado pintor oficial da Marinha Imperial Russa, o que lhe deu acesso a navios, portos e batalhas navais que inspiraram muitas de suas telas. Recebeu condecorações de vários países europeus, incluindo a França, a Itália e a Prússia. Suas obras eram compradas por museus, colecionadores e nobres. Mas, independentemente do prestígio internacional, nunca deixou de lado a Armênia, que ele considerava sua pátria espiritual, e Feodosia, sua cidade natal, onde fundou uma escola de artes e uma galeria, que mais tarde se tornaria o Museu Aivazovsky, ainda hoje uma das principais referências sobre sua vida e obra. Obra “A Nona Onda”, sua mais famosa, pintada em 1850 Ligação com a Armênia Apesar de sua carreira internacional e da popularidade que alcançou em diversas cortes europeias, Aivazovsky manteve a Armênia no centro de sua identidade pessoal e artística. Ele não
Evento “Conscientização Cultural da Armênia”

Como sabemos, a Armênia tem uma história milenar e importante em todos os aspectos possíveis. Por isso, no último dia 26 de junho, foi realizado o evento “Conscientização Cultural da Armênia”, na Prefeitura Municipal de São Paulo, em uma parceria da UGAB Brasil e Consulado Honorário da Armênia em São Paulo, com realização e idealização da Secretaria Municipal de Relações Internacionais (SMRI) de São Paulo. O evento foi para um público de 200 pessoas, que incluía 120 professores da rede municipal de educação. O Evento Antes da abertura oficial, foi oferecido um coffe break para todos os presentes. Em seguida, todos foram chamados ao auditório da Prefeitura Municipal de São Paulo, para que tivesse início essa tarde memorável para a Armênia no Brasil. Além dos 200 presentes, houve uma mesa composta pelas seguintes autoridades: Avedis Markossian, presidente da UGAB Brasil; Vereador Paulo Frange; Fernando Ferreira, secretário municipal em exercício da SMRI; Sra. Hilda Diruhy Burmaian, Cônsul Honorária da Armênia em São Paulo; Maria Silvia Bacila, secretária executiva da Educação de São Paulo. Autoridades presentes na mesa no evento “Conscientização Cultural da Armênia” e o mestre de cerimônias, o professor Emerson Mota Santana Programação O evento também apresentou uma programação diversificada sobre a Armênia, abordando temas que iam da história à tecnologia, especialmente voltada aos 120 educadores da rede municipal e aos secretários presentes. Porém, antes do início oficial, as autoridades presentes puderam discursar para o público sobre a importância do evento, da parceria e da cultura armênia para a cidade de São Paulo. Após os discursos, houve a exibição de um vídeo institucional da Secretaria Municipal de Relações Internacionais de São Paulo e, logo em seguida, a programação cultural e histórica se iniciou, com a apresentação do Grupo de Danças Típicas Armênias “Kilikia”. Apresentações O Grupo Kilikia é um grupo de dança armênia que promove e preserva a cultura armênia por meio de apresentações. O grupo realiza seus ensaios de forma contínua, com o objetivo de ensinar e promover a dança armênia, como a “Kochari”, que é uma dança circular. Além disso, a Kilikia faz parte de um movimento maior para manter vivas as tradições armênias. Durante o evento, o grupo se apresentou com cinco dançarinos, que encantaram o público pela precisão e harmonia de seus movimentos. Apresentação do Grupo Kilikia Em seguida, foi a vez da palestra “História e Armênia Moderna”. Nela, o historiador, professor, colunista e criador do podcast Xadrez Verbal Filipe Figueiredo mesclou o passado e o presente da Armênia, passando desde a antiguidade (com referências ao Monte Ararat e aos reis da Armênia) até os tempos atuais, abordando o desenvolvimento político, econômico e social do país. Sua fala incluiu experiências pessoais vividas na Armênia, o que tornou o conteúdo ainda mais autêntico, já que Filipe participou duas vezes do curso “Armênia: política, história e sociedade” Filipe Figueiredo falando sobre suas experiências na Armênia Quem também colocou suas experiências pessoais ao falar sobre seu tema de estudo foi Nathália Hovsepian, que fez a palestra “Genocídio Armênio e a Diáspora no Brasil. Nela, Nathália comentou sobre os impactos do Genocídio Armênio, como a educação é fundamental no estudo da temática e, claro, como isso impactou os armênios e o surgimento de uma diáspora no Brasil. Uma grande estudiosa do assunto, ela mesclou dados históricos, testemunhos e conexões com sua própria história familiar, ressaltando a importância da memória coletiva e da educação inclusiva. Nathália Hovsepian em sua apresentação sobre o Genocídio Armênio e a diáspora no Brasil Ainda continuando no tema Genocídio Armênio, foi a vez da artista armênia-brasileira Juliana Marachlian Nersessian falar de suas experiências no mundo artístico. Responsável pela identidade visual do evento – inspirada em uma famosa obra deArshile Gorky –, Juliana apresentou sua carreira e destacou como a cultura armênia e o genocídio influenciaram suas obras. Juliana Marachlian Nersessian compartilhando suas experiências com o público Com quatro telas retratando mulheres armênias presentes no eevento, Juliana falou sobre o processio criativo para realizar as obras e a mensagem de resistência e memória presente em sua arte. A artista Juliana Marachlian Nersessian ao lado de uma de suas obras, que retrata uma mulher armênia Mas sabemos, claro, que a Armênia tem um setor educacional, tecnológico e turístico incríveis e diferenciados. Assim, subiu ao palco o produtor da UGAB Brasil, Antonio Carlos Sandoval, para a apresentação “Armênia: Educação, Tecnologia e Turismo”. Nela, Antonio apresentou dados sobre educação, tecnologia e turismo na Armênia, mostrando como o país tem investido nessas áreas e conquistado reconhecimento global. A apresentação também enfatizou o impacto da diáspora no campo acadêmico e tecnológico, bem como o papel da UGAB no apoio a projetos inovadores e de como a Armênia, apesar de um pequeno país, impacta globalmente o mundo. Antonio Carlos Sandoval falando sobre educação, tecnologia e turismo na Armênia Por fim, para o encerramento, o ator, dramaturgo e autor armênio Arthur Haroyan declamou – em armênio! – um dos poemas mais importantes da história armênia e um dos mais lindos: “De Minha Doce Armênia”, de Yeghishe Charents. Arthur Haroyan declamando o belo poema “De Minha Doce Armênia”, de Yeghishe Charents. Perspectivas O evento demonstrou a importância da Armênia no cenário global e fortaleceu o vínculo entre as instituições públicas de São Paulo e a diáspora armênia, mostrando o caminho para futuras ações culturais, educativas e diplomáticas. A UGAB Brasil agradece a Prefeitura de São Paulo, em especial à SMRI; ao vereador Paulo Frange; ao Secretário Municipal em Exercício do SMRI, Fernando Ferreira; à Sra. Cônsul Honorária da Armênia, Sra. Hilda Diruhy Burmaian; ao Professor Emerson Mota Santana (@professoremersonmotasantana); e, claro, aos professores e demais participantes.
O Grande Épico Nacional Armênio: David de Sassoun

“O épico é um grande tesouro da vida e da força espiritual do povo armênio e uma prova indiscutível de sua grandeza diante do mundo.”— Hovhannes Tumanyan Como é sabido, o épico nacional de um povo não apenas retrata sua origem e trajetória histórica, mas também expressa episódios de autoconhecimento, resistência e a construção de símbolos que moldam sua identidade nacional. No caso da Armênia, esse papel é exercido pelo épico “David de Sassoun”, também conhecido como “Os Bravos de Sassoun” ou “David Sasuntsi”. Historicamente – e com razão -, este épico ocupa um lugar de destaque na tradição oral e literária da Armênia. As Origens de um Herói O épico surgiu em Sassoun, uma região montanhosa situada no planalto armênio, conhecida por seus picos Tsovasar e Maratuk. Os habitantes de Sassoun eram famosos por sua ligação com a terra e por sua perseverança. A história foi preservada por meio da tradição oral, transmitida por gerações de contadores de histórias. Uma das primeiras versões registradas foi compilada por Garegin Srvandztiants, em 1874, a partir do relato de um narrador chamado Tarontsi Krpo. Posteriormente, em 1889, Manuk Abeghyan publicou uma nova versão. Em 1939, para marcar o centenário da criação do épico, uma versão consolidada foi elaborada com base em 60 relatos e por textos compilados de estudiosos como Abeghyan, Gevorg Abov e Aram Ghanalanyan. Uma das diversas artes realizadas na Armênia retratando David de Sassoun A Estrutura do Épico O épico se divide em quatro grandes ciclos genealógicos, cada um centrado em uma geração de heróis: Sanasar e Baghdasar Mher, o Grande (Mets Mher) David de Sassoun Mher, o Pequeno (Pokr Mher) Os primeiros heróis do épico, Sanasar e Baghdasar, eram filhos de Tsovinar, a filha do rei armênio Gagik. Antes de deixar sua terra natal, Tsovinar bebe um punhado inteiro e depois meio punhado de água da fonte mágica Katnaghbyur. Do primeiro punhado de água nasceu Sanasar, grande e forte; e do segundo punhado nasceu Baghdasar, pequeno. Os irmãos crescem e se tornam fortes. Lutam contra o exército do califa de Bagdá, o derrotam e se libertam do domínio do califado. Assim, retornam à sua Sassoun natal, constroem uma fortaleza e fortalecem a cidade. Sanasar é sucedido por seu filho mais corajoso, Mher. Mets Mher também era chamado de “Mher, o Leão”, porque lutou e despedaçou com as próprias mãos um leão gigante que bloqueava o caminho até o pão. Mets Mher também derrotou Msra-Melik na luta e libertou Sassoun do pagamento de impostos. Mets Mher e sua luta contra um leão Anos depois, quando Msra-Melik morre, sua esposa, Ismil Khatun, convida Mher a governar seu país. De maneira astuta, Ismil o mantém ali por sete anos e dá à luz um filho dele, que ela chama de Melik, em homenagem ao falecido marido. Percebendo o erro, Mher retorna a Sassoun e a reconstrói. Algum tempo depois, nasce David, mas assim que é levado para casa, Mher e sua esposa morrem. As virtudes do épico atingem seu auge na figura de David, reconhecido pelo povo como o herói principal. Através dele são expressadas as ideias nobres, as emoções profundas e os desejos mais caros do povo armênio. Ele luta contra o enorme exército de Msra-Melik Júnior e o mata com um único golpe de espada. David teve apenas um filho, chamado Pokr Mher. No entanto, antes de morrer, David o amaldiçoa, já que Pokr Mher não reconhece o pai e luta contra ele. O Desfecho do Épico David amaldiçoa Mher a ser imortal e sem filhos. Pokr Mher, em substituição ao pai, luta corajosamente contra os inimigos de David e completa sua vingança. A maldição se cumpre: o último herói do épico permanece sem descendentes e se enclausura em Agravakar (Penhasco do Corvo). Assim, sem herdeiros, Pokr Mher encerra a saga do épico armênio. E, ao lado dos heróis principais, surgem diversos anciãos que auxiliam os bravos de Sassoun com seus conselhos e orientações. Características do Épico Todo épico nacional tem como tarefa central a questão da formação do Estado. Se não tratar da construção do Estado, não pode ser considerado um épico. Dessa forma, no épico armênio, o símbolo do Estado é a fortaleza. Com a construção das muralhas, Sanasar e Baghdasar lançam os alicerces da dinastia de Sassoun. Os eventos históricos retratados ocorrem durante o domínio árabe, descrevendo a luta dos habitantes de Sassoun contra os conquistadores. Alguns nomes e episódios têm base histórica. No entanto, vale lembrar que as raízes do épico armênio remontam a milênios, a uma época em que as pessoas viviam de forma simples. O épico abarca a cultura e a história do povo ao longo de diferentes períodos. Ele menciona reis, príncipes, clero e povo comum. Porém, seus modos de vida, costumes e conhecimentos eram semelhantes. Os reis mantinham relações muito próximas com o povo e os habitantes de Sassoun amavam seus governantes. A principal diferença entre eles era que uns governavam e outros obedeciam. Os heróis deste grande épico não apenas lutavam contra invasores, mas também ajudavam os camponeses nas tarefas diárias. Eram gigantes de força sobre-humana, que cresciam rapidamente. Apesar de sua força, eram bondosos, ingênuos e simples, ou seja, não eram figuras abstratas, mas pessoas comuns com qualidades e defeitos. Uma das características mais importantes de David de Sassoun como épico e tradição oral e literária é nos oferecer informações sobre a vida familiar, os costumes, a religião, as cerimônias e as crenças do povo armênio naquela época. Obra retratando a reverência que o povo tinha por David de Sassoun Paganismo no Épico No épico, há muitos elementos do paganismo armênio, como, por exemplo, o culto do fogo e, também, da água, da luz, da terra, dos astros e dos antepassados. Os personagens Mets Mher e Pokr Mher são associados ao deus solar Mihr e as mulheres do épico possuem qualidades solares e lunares, bem como dons de feitiçaria e adivinhação. Na mitologia armênia, Sanasar e Baghdasar enfrentam um monstro que bloqueia a fonte de água, o matam
Tradições Armênias: do Paganismo ao Cristianismo

As festas nacionais armênias carregam significados que vão muito além do que vemos nos dias de hoje. Ao longo dos séculos, esses feriados se transformaram, assumindo novos significados e modos com a chegada do cristianismo, mas sem perder as raízes originais que povoam o imaginário do povo armênio! Essas celebrações resistiram ao tempo e à mudança de crenças; elas continuam vivas por meio da cultura milenar e popular armênia, dos rituais e, claro, das tradições familiares. Hoje em dia, mesmo que muito desses feriados sejam celebrados sob um viés cristão, suas origens remontam aos tempos pagãos. Neste texto, vamos conhecer algumas das principais festas nacionais armênias, que atravessaram milênios, migrando do paganismo para o cristianismo, mas sem perder sua essência cultural! Zatik (Páscoa) e a Deusa Anahit No mundo cristão, a Páscoa representa a ressurreição de Jesus Cristo. Em armênio, a celebração é chamada de Zatik, termo que deriva de “zatel”, que significa “separar-se” – neste caso, do pecado. Portanto, esse é um dia sagrado que simboliza o renascimento espiritual e a libertação do mal. Mas, muito antes da era cristã, os armênios já celebravam esta data como um festival da primavera, ligado à fertilidade da terra. Essa comemoração era dedicada à deusa Anahit, considerada a protetora da fertilidade e uma das principais divindades femininas do panteão armênio. Estátua da deusa Anahit, que pertence ao Museu Britânico e que atualmente está exposta no Museu de História da Armênia A Lenda da Deusa Anahit e o Pássaro de Fogo Segundo a tradição armênia, após o dilúvio, os arianos que chegaram ao vale do Ararat encontraram a natureza acinzentada e sem vida. Para restaurar as cores do mundo, um homem chamado Man ofereceu sacrifícios à deusa Anahit; ela respondeu que somente o mítico Pássaro de Fogo poderia devolver a vitalidade ao mundo, espalhando cores ao cantar e ao botar ovos coloridos. Man libertou o pássaro do reino subterrâneo, e ao retornar, ele cantou, coloriu o mundo e encheu o vale com ovos mágicos. A deusa Anahit então espalhou esses ovos pela região e ordenou que o pássaro fizesse ninho no Monte Ararat para manter vivas as cores da terra. Desde então, a Páscoa passou a ser celebrada como a renovação da vida e a chegada da primavera. Os ovos pintados simbolizavam a fertilidade e a alegria da estação – e eram coloridos de forma vibrante, diferentemente do costume cristão – de muitos lugares do mundo – de pintá-los de vermelho. Ovos comuns na Páscoa na Armênia A Virgem Maria e a Deusa Anahit Outra festa cristã armênia muito celebrada é a Dormição da Mãe de Deus, também conhecida como a bênção das uvas. A tradição conta que, durante 12 anos após a crucificação de Jesus, Maria continuamente visitava seu túmulo, até que foi informada por um anjo sobre sua ascensão aos céus. Com a adoção do cristianismo, as características da deusa Anahit – feminilidade, maternidade, fertilidade – foram atribuídas à Virgem Maria. Os antigos templos de Anahit tornaram-se igrejas marianas e as festas pagãs foram absorvidas e ressignificadas pela nova fé. Essa bênção das uvas também fazia parte do Navasard, o Ano Novo armênio; era um ritual de agradecimento pelas colheitas. Sempre, a primeira fruta da videira era oferecida à deusa Anahit como sinal de respeito. Já nos dias atuais, apenas as uvas são abençoadas na igreja, porque delas também se faz o vinho sagrado utilizado nas liturgias. Bênção das uvas, uma tradição armênia O Navasard era comemorado no início de agosto e marcava o início da colheita. Famílias se reuniam nos campos para rituais de gratidão, com danças, músicas e festas comunitárias. Era um dos feriados mais importantes do calendário pagão, celebrando a abundância, a natureza e a unidade do povo armênio. Imagem retratando o Navasard, o Ano Novo armênio Vardavar e a Deusa Astghik Hoje em dia, o Vardavar é celebrado como a festa da Transfiguração de Cristo, sempre comemorada no 98º dia após a Páscoa. Durante este divertido feriado, é tradição as pessoas se molharem com baldes d’água, soltar pombas e celebrar com muita alegria, todos esses símbolos que remetem à história da Arca de Noé e à purificação. Porém, antes do cristianismo, Vardavar era um festival pagão em homenagem à deusa do amor e da beleza, Astghik. Nascida da espuma do mar, a lenda conta que onde ela passava, ela deixava rastros de sangue que se transformavam em rosas. O nome da festa vem da palavra “vard”, que significa rosa em armênio. Por falar em Astghik, ela era amada pelo deus do trovão, Vahagn. Em momento mítico, ela é sequestrada por uma criatura do submundo, mergulhando o mundo na tristeza e feiura. Quando Vahagn a resgata, ele percorre a Armênia espalhando água de rosas e restaurando a beleza e o amor. Durante o Vardavar, os armênios homenageavam Astghik jogando água uns nos outros, decorando com rosas e celebrando a beleza e o amor. Além disso, também era um dia de rituais relacionados à água, um elemento considerado sagrado e símbolo de pureza. Imagem retratando a deusa Astghik Trndez: Festival do Fogo Celebrado 40 dias após o Natal, o Trndez é um feriado cristão dedicado à luz e ao amor de Deus. Mas, mais uma vez, suas origens são pagãs: era uma festa do fogo, elemento considerado uma forma terrena do sol, o qual os armênios cultuavam. Durante Trndez, casais e jovens saltavam sobre fogueiras para garantir sorte e fertilidade. Também se faziam adivinhações por meio da fumaça, buscando prever o futuro ou descobrir a origem de um possível casamento. Pratos tradicionais eram preparados e levados ao redor da fogueira como oferendas. Armênios celebrando o Trndez Tsakhkazard (ou Tsarzardar): um Culto à Natureza Celebrado uma semana antes da Páscoa, o Tsakhkazard simboliza a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Na celebração, ramos de salgueiro ou oliveira são abençoados e levados para casa como sinal de proteção e fartura. Mas, antes do cristianismo, esse festival era uma celebração do renascimento da natureza e da fertilidade das árvores. Os antigos
Jogos Nacionais da Armênia: Tradição, Cultura e Diversão

A Armênia, por ser uma das nações mais antigas do mundo, possui muitos jogos tradicionais, como kokh, chlik-dastan, sete pedras, havala (salto de sapo) e tantos outros. São diversas as brincadeiras e competições que marcaram gerações, refletindo não apenas o espírito do povo armênio, mas também valores culturais profundos. Mais do que jogos, era um modo de vida. Desde os tempos antigos, os jogos sempre foram parte essencial da vida na Armênia e, durante a Idade Média, até mesmo peças teatrais e espetáculos circenses eram chamados de “jogos”. Nesses eventos, era comum que as pessoas cantassem músicas engraçadas e alegres, criando um ambiente festivo. As brincadeiras infantis tinham um papel fundamental no desenvolvimento das crianças; e não apenas físico, mas também mental e emocional. Em especial, os meninos eram incentivados desde cedo a desenvolver resistência, agilidade, criatividade e espírito competitivo. Já as canções cômicas e poemas que acompanhavam os jogos despertavam o senso de humor dos mais jovens. Crianças armênias se divertindo Competição e espetáculo: a alma dos jogos armênios Apesar da variedade, todos os jogos tradicionais armênios têm algo em comum: são competitivos e frequentemente teatrais. As atividades eram adaptadas à idade e ao gênero dos participantes. Os meninos, por exemplo, participavam de jogos mais exigentes fisicamente, enquanto as meninas tinham brincadeiras próprias. Em determinados períodos históricos, grupos familiares e comunitários possuíam jogos específicos. Havia pontos de encontro conforme a faixa etária e o sexo, e algumas reuniões chegavam a reunir até 200 pessoas! Campos abertos e até mesmo os telhados das casas serviam de espaço para essas celebrações lúdicas. Barekendan: o carnaval armênio e seus jogos As competições e encenações tradicionais ocorriam com frequência em cerimônias e festividades, como o famoso Barekendan, uma espécie de “dia da loucura” anterior à Quaresma, marcado por danças, cantos, jogos e muito riso – muito semelhante ao tradicional carnaval brasileiro; e assim como no Brasil, a tradição armênia está intrinsecamente ligada à igreja. Toda a comunidade se reunia na praça central de seu vilarejo e, após as atividades, celebravam com um grande banquete coletivo. Era um momento especial para a exibição dos jogos nacionais e sempre acontecia no úlgimo domingo antes da Quaresma. Barekendan significa “vida boa” ou “boa vida” e o objetivo nessa data é viver alegremente e ser feliz nesses dias antecedentes ao período de jejum. E tanto crianças quanto adultos criavam bonecos artesanais usando materiais simples, tendo uma cebola como base. Esses bonecos representam sorte e harmonia durante o evento. Sete penas de galinha são fincadas na cebola, e a cada dia do evento, uma delas é removida. No final, os bonecos são lançados no rio. Barekendan sendo praticado nos dias atuais Jogos com cavalos: tradição e treinamento Os jogos de guerra remontam à pré-história e muitos tinham como foco o preparo físico e militar. Eram praticados apenas por homens e envolviam também cavalos, já que a criação e doma desses animais sempre foram importantes na cultura armênia. E esses jogos se dividiam em dois tipos: montaria e corrida de cavalos e jogos com lanças – nesse último, os participantes, montados, tentavam atingir o adversário com uma lança de madeira. Quando se trata de jogos com cavalos, um dos mais marcantes era o “duelo dos sparapets”, onde cada participante usava uma pena no capacete, tendo como objetivo derrubar a pena do oponente com uma lança. Essas competições eram comuns em festas e eventos até o início do século XX, especialmente entre as classes mais altas. Armênios praticando jogos com cavalos nos tempos modernos Sete pedras: estratégia e agilidade Outro jogo com raízes militares é o sete pedras, originalmente jogado com fragmentos de escudos inimigos. Mais tarde, substituídos por pedras, o jogo envolvia de 10 a 20 participantes divididos em dois times. Um time defendia uma pirâmide de pedras, enquanto o outro tentava derrubá-la com uma bola. Se a pirâmide fosse derrubada, os defensores tentavam impedir, com a bola, que o outro time reconstruísse a estrutura. Vencia quem conseguisse reerguer as pedras. O jogo durava até todos se cansarem ou até escurecer. Com a chegada da noite, a brincadeira dava lugar ao tradicional esconde-esconde, também muito jogado no Brasil. Exemplo moderno do jogo sete pedras O pião armênio: habilidade e precisão Esse jogo não tinha limite de participantes. Era preciso um pião (feito de madeira com ponta de ferro) e uma corda com um nó especial. O pião era enrolado com a corda, arremessado e começava a girar no chão. A missão era acertar um carretel (outro pião sem ponta) para empurrá-lo até um buraco escavado no solo. Ganhava quem conseguisse empurrar o carretel para dentro do buraco mais vezes. E como em muitos jogos antigos, o prêmio era simbólico — geralmente o próprio pião do adversário! Clássico modelo de pião armênio Kokh: a luta tradicional armênia Kokh é considerado o ancestral da luta livre moderna. Esse esporte importante para os armênios estava presente em casamentos, festas e grandes encontros. Antes do combate, os lutadores dançavam ao som de músicas folclóricas e só então a disputa começava. Vencia quem derrubasse o oponente no chão. Nos casamentos, havia uma encenação simbólica de kokh entre os pais do noivo e da noiva, selando a união entre as famílias. Para o noivo, o kokh era um rito de passagem, demonstrando estar pronto para a vida adulta e o casamento. A importância cultural do kokh é tanta que aparece no famoso poema “Anush”, de Hovhannes Tumanyan, onde um amigo quebra a tradição ao derrubar o outro em público, sendo esse um gesto gesto que leva ao fim da amizade. Kokh, uma das primeiras formas de luta livre da humanidade, sendo praticada na Armênia Ainda existem comunidades na Armênia que mantêm vivos os jogos tradicionais. Eles são muito mais do que simples passatempos; eles representam identidade, história e sabedoria popular do povo armênio. Preservar esses jogos é manter acesa uma parte essencial da cultura armênia — uma herança que merece ser conhecida e valorizada pelas novas gerações!
Curiosas expressões em armênio

A língua armênia é um idioma único e ancestral que vem sendo falado há séculos e séculos. E ao longo de sua existência, essa língua se desenvolveu e passou por diversas mudanças. Surgiram muitos dialetos, cada um com suas próprias características e peculiaridades interessantes. Naturalmente, com o tempo, assim como acontece em outros idiomas, a língua armênia incorporou expressões idiomáticas curiosas – frases peculiares que as pessoas usam no cotidiano, muitas vezes sem nem perceber. Algumas dessas expressões podem ter significados semelhantes aos de outras línguas, enquanto outras são quase impossíveis de compreender sem o conhecimento da cultura armênia. Apesar de a nossa língua portuguesa também ser muito rica, o armênio e o português acabam sendo bem diferentes entre si. Para mostrar essa diferença, vamos mostrar algumas expressões armênias curiosas, já que, recentemente, muitas ilustrações divertidas começaram a circular na internet, representando o significado literal delas – as artes foram feitas pela artista Maryush. Expressões utilizadas no dia a dia em armênio Tsavd tanem (Ցավդ տանեմ) – A tradução literal dessa frase é “Que eu leve sua dor”. Ela pode ser usada em diferentes contextos. Às vezes, expressa um amor muito forte, e, em outras, transmite empatia e solidariedade diante de uma situação difícil. Seguindo a mesma linha de expressões que demonstram grande afeto, podemos destacar outras frases, como “mernem janid” (Մեռնեմ ջանիդ), que significa literalmente “Vou morrer pelo seu corpo”, e “jigyard utem” (Ջիգյարդ ուտեմ), cuja tradução literal é “Vou comer seu fígado”. Embora essas expressões possam parecer estranhas ou até assustadoras para quem não é falante nativo, elas são usadas principalmente por pais e avós para expressar amor incondicional e o desejo de proteger seus entes queridos a qualquer custo. Ilustração representando a frase “gyard utem/vou comer seu fígado” Outra expressão curiosa é “qoranam yes” (Քոռանամ ես), que significa literalmente “Que eu fique cego”. Esse ditado é usado para demonstrar empatia e preocupação quando algo ruim acontece com alguém. Algumas dessas expressões podem ter diferentes significados dependendo do contexto. Uma das mais comuns e populares é “hors/Mors arev” (Հորս/Մորս արև), que significa “O sol do meu pai/mãe”. Essa frase é frequentemente utilizada para fazer um juramento ou promessa séria, indicando que a pessoa realmente cumprirá o que disse. Também pode ser usada em momentos de irritação ou frustração. Outra expressão interessante é “eshi akanjin qnats” (Էշի ականջին քնած), que se traduz como “dormindo na orelha do burro”. Essa frase é usada para descrever alguém que está alheio ao que acontece ao seu redor ou que não presta atenção em nada. Ilustração representando a frase “eshi akanjin qnats/dormindo na orelha do burro” Algumas outras expressões curiosas “Achkits ynknel” (Աչքից ընկնել) – essa expressão significa “cair do olho” e é usada para expressar desapontamento com alguém. Se uma pessoa faz algo que decepciona profundamente outra, pode-se dizer que ela “caiu dos olhos” dessa pessoa. Outra frase bastante peculiar é “achkd luys” (Աչքդ լույս), que significa “luz para seu olho”. Essa expressão pode ser usada como uma forma de parabenizar alguém e desejar coisas boas. É uma frase comumente dita para felicitar uma nova mãe pelo nascimento de seu bebê. No entanto, também pode ser usada com tom sarcástico, significando algo como “ah, sério?”. “Qtits trats” (Քթից թռած) – A tradução literal dessa frase é “saiu do nariz”, mas seu significado real é descrever uma pessoa que se parece muito com um parente, seja fisicamente ou em termos de personalidade. Um equivalente próximo no português seria “cara de um, focinho do outro” ou “tal pai, tal filho”. Ilustração representando a frase “qtits trats/saiu do nariz”. Como podemos perceber, a língua armênia está repleta de expressões curiosas e divertidas que podem parecer estranhas ou até assustadoras para quem não está familiarizado com elas. No entanto, ao interagir com falantes nativos, é possível compreender melhor o verdadeiro significado dessas frases e mergulhar na cultura rica e fascinante da Armênia. Se você deseja se aprofundar ainda mais no idioma armênio, aprender do zero ou conhecer mais essas expressões, não deixe de conhecer os cursos de armênio oriental e ocidental do Armenian Virtual College (AVC). Aprendendo frases assim, você entenderá que elas carregam consigo a história, a criatividade e a identidade do povo armênio. Para se inscrever no curso de armênio do AVC, basta clicar aqui.