Jogos Nacionais da Armênia: Tradição, Cultura e Diversão

A Armênia, por ser uma das nações mais antigas do mundo, possui muitos jogos tradicionais, como kokh, chlik-dastan, sete pedras, havala (salto de sapo) e tantos outros. São diversas as brincadeiras e competições que marcaram gerações, refletindo não apenas o espírito do povo armênio, mas também valores culturais profundos. Mais do que jogos, era um modo de vida. Desde os tempos antigos, os jogos sempre foram parte essencial da vida na Armênia e, durante a Idade Média, até mesmo peças teatrais e espetáculos circenses eram chamados de “jogos”. Nesses eventos, era comum que as pessoas cantassem músicas engraçadas e alegres, criando um ambiente festivo. As brincadeiras infantis tinham um papel fundamental no desenvolvimento das crianças; e não apenas físico, mas também mental e emocional. Em especial, os meninos eram incentivados desde cedo a desenvolver resistência, agilidade, criatividade e espírito competitivo. Já as canções cômicas e poemas que acompanhavam os jogos despertavam o senso de humor dos mais jovens. Crianças armênias se divertindo Competição e espetáculo: a alma dos jogos armênios Apesar da variedade, todos os jogos tradicionais armênios têm algo em comum: são competitivos e frequentemente teatrais. As atividades eram adaptadas à idade e ao gênero dos participantes. Os meninos, por exemplo, participavam de jogos mais exigentes fisicamente, enquanto as meninas tinham brincadeiras próprias. Em determinados períodos históricos, grupos familiares e comunitários possuíam jogos específicos. Havia pontos de encontro conforme a faixa etária e o sexo, e algumas reuniões chegavam a reunir até 200 pessoas! Campos abertos e até mesmo os telhados das casas serviam de espaço para essas celebrações lúdicas. Barekendan: o carnaval armênio e seus jogos As competições e encenações tradicionais ocorriam com frequência em cerimônias e festividades, como o famoso Barekendan, uma espécie de “dia da loucura” anterior à Quaresma, marcado por danças, cantos, jogos e muito riso – muito semelhante ao tradicional carnaval brasileiro; e assim como no Brasil, a tradição armênia está intrinsecamente ligada à igreja. Toda a comunidade se reunia na praça central de seu vilarejo e, após as atividades, celebravam com um grande banquete coletivo. Era um momento especial para a exibição dos jogos nacionais e sempre acontecia no úlgimo domingo antes da Quaresma. Barekendan significa “vida boa” ou “boa vida” e o objetivo nessa data é viver alegremente e ser feliz nesses dias antecedentes ao período de jejum. E tanto crianças quanto adultos criavam bonecos artesanais usando materiais simples, tendo uma cebola como base. Esses bonecos representam sorte e harmonia durante o evento. Sete penas de galinha são fincadas na cebola, e a cada dia do evento, uma delas é removida. No final, os bonecos são lançados no rio. Barekendan sendo praticado nos dias atuais Jogos com cavalos: tradição e treinamento Os jogos de guerra remontam à pré-história e muitos tinham como foco o preparo físico e militar. Eram praticados apenas por homens e envolviam também cavalos, já que a criação e doma desses animais sempre foram importantes na cultura armênia. E esses jogos se dividiam em dois tipos: montaria e corrida de cavalos e jogos com lanças – nesse último, os participantes, montados, tentavam atingir o adversário com uma lança de madeira. Quando se trata de jogos com cavalos, um dos mais marcantes era o “duelo dos sparapets”, onde cada participante usava uma pena no capacete, tendo como objetivo derrubar a pena do oponente com uma lança. Essas competições eram comuns em festas e eventos até o início do século XX, especialmente entre as classes mais altas. Armênios praticando jogos com cavalos nos tempos modernos Sete pedras: estratégia e agilidade Outro jogo com raízes militares é o sete pedras, originalmente jogado com fragmentos de escudos inimigos. Mais tarde, substituídos por pedras, o jogo envolvia de 10 a 20 participantes divididos em dois times. Um time defendia uma pirâmide de pedras, enquanto o outro tentava derrubá-la com uma bola. Se a pirâmide fosse derrubada, os defensores tentavam impedir, com a bola, que o outro time reconstruísse a estrutura. Vencia quem conseguisse reerguer as pedras. O jogo durava até todos se cansarem ou até escurecer. Com a chegada da noite, a brincadeira dava lugar ao tradicional esconde-esconde, também muito jogado no Brasil. Exemplo moderno do jogo sete pedras O pião armênio: habilidade e precisão Esse jogo não tinha limite de participantes. Era preciso um pião (feito de madeira com ponta de ferro) e uma corda com um nó especial. O pião era enrolado com a corda, arremessado e começava a girar no chão. A missão era acertar um carretel (outro pião sem ponta) para empurrá-lo até um buraco escavado no solo. Ganhava quem conseguisse empurrar o carretel para dentro do buraco mais vezes. E como em muitos jogos antigos, o prêmio era simbólico — geralmente o próprio pião do adversário! Clássico modelo de pião armênio Kokh: a luta tradicional armênia Kokh é considerado o ancestral da luta livre moderna. Esse esporte importante para os armênios estava presente em casamentos, festas e grandes encontros. Antes do combate, os lutadores dançavam ao som de músicas folclóricas e só então a disputa começava. Vencia quem derrubasse o oponente no chão. Nos casamentos, havia uma encenação simbólica de kokh entre os pais do noivo e da noiva, selando a união entre as famílias. Para o noivo, o kokh era um rito de passagem, demonstrando estar pronto para a vida adulta e o casamento. A importância cultural do kokh é tanta que aparece no famoso poema “Anush”, de Hovhannes Tumanyan, onde um amigo quebra a tradição ao derrubar o outro em público, sendo esse um gesto gesto que leva ao fim da amizade. Kokh, uma das primeiras formas de luta livre da humanidade, sendo praticada na Armênia Ainda existem comunidades na Armênia que mantêm vivos os jogos tradicionais. Eles são muito mais do que simples passatempos; eles representam identidade, história e sabedoria popular do povo armênio. Preservar esses jogos é manter acesa uma parte essencial da cultura armênia — uma herança que merece ser conhecida e valorizada pelas novas gerações!
Shavarsh Karapetyan, um improvável herói armênio

A Armênia, além de seus heróis clássicos e históricos, como Hayk Nahapet, o patriarca e fundador da Nação Armênia, também tem seus heróis comuns e não tão famosos. Entre eles, temos os heróis que lutam pela pátria, como aqueles que lutaram na Guerra dos 44 dias, e temos aqueles que viraram heróis por acaso, como Shavarsh Karapetyan, um até então simples nadador armênio, e que faz aniversário hoje, dia 19. Vida, infância e natação Karapetyan nasceu no dia 19 de maio de 1953 em Vanadzor, a terceira maior cidade da Armênia (que à época se chamava Kirovakan), na então União Soviética. Aos 11 anos de idade, junto de sua família, se mudou para Yerevan, onde terminou seus anos de escola e, posteriormente, frequentou uma escola técnica de mecânica de automóveis. Devido ao conselho de amigos de sua família, desde muito cedo ele começou a nadar e, depois, ele começou a praticar natação com nadadeiras, onde se destacou a nível mundial – a natação com nadadeiras (mundialmente conhecida como “finswimming”) é um esporte nascido na década de 1950, que consiste em um nado subaquático, e por vezes na superfície, sem o uso dos braços e com o auxílio de uma nadadeira comum (uma para cada pé) ou de uma mononadadeira (visualmente duas unidas) e um snorkel. No esporte, ele se tornou recordista mundial 11 vezes, conquistou sete campeonatos soviéticos, 13 campeonatos europeus e 17 campeonatos mundiais. Ao se aposentar, ainda jovem – e saberemos o porquê em breve –, ele havia conquistado 37 medalhas de ouro e havia recebido o título de Mestre do Mérito de Esportes da URSS. Shavarsh Karapetyan em competição nos anos 70 na URSS Heroísmo e aposentadoria Em uma fria manhã, no dia 16 de setembro de 1976, Karapetyan havia acabado de completar uma prova de 26 quilômetros quando ouviu um grande estrondo e viu um trólebus afundando em um reservatório de água, que era conhecido como Lago Yerevan. A causa exata do acidente com os 92 passageiros permanece desconhecida. Alguns disseram que um dos passageiros atacou o motorista após uma discussão entre eles; outros alegaram que o motorista teve um ataque cardíaco. Com o veículo a 10 metros da superfície e a maioria dos passageiros estando inconscientes e submersos, sem pensar duas vezes, Shavarsh Karapetyan pulou na água congelante e pediu para que seu irmão, o também campeão de natação Kamo Karapetyan, o ajudasse no resgate. E apesar das condições da água, que estavam infestadas de esgoto, e da pouca visibilidade devido ao lodo, Karapetyan mergulhou e usou suas pernas para chutar a janela traseira do trólebus. Ele mergulhou nas águas fritas e turvas do Lago Yerevan cerca de 40 vezes, entrando e saindo através de vidros quebrados, procurando os passageiros no escuro. Enquanto mergulhava, seu irmão Kamo cuidava das pessoas levadas à superfície. Cada mergulho de Shavarsh Karapetyan levava cerca de 25 segundos e no último mergulho, à beira do desmaio, ele emergiu agarrado a uma almofada de assento, que pensou à época ser uma vítima. Sobre isso, ele disse anos depois: “tive pesadelos com aquela almofada por muito tempo. Eu poderia ter salvado a vida de outra pessoa”. Após seu último mergulho, ele perdeu a consciência. Com cortes devido aos vidros e vítima de uma contaminação devido à poluição da água e, também, por uma grave pneumonia, Karapetyan foi hospitalizado junto às vítimas do acidente e ficou inconsciente por 46 dias, ficando entre a vida e a morte. Sobre o acidente, ele disse anos depois: “Foi assustador no começo. Foi tão alto, como se uma bomba tivesse explodido. Quase me afoguei várias vezes. Eu podia imaginar a agonia daquelas 92 pessoas e sabia como elas iriam morrer”. A operação de resgate no Lago Yerevan Contrariando todas as expectativas, ele conseguiu se recuperar. Quando finalmente recebeu alta, voltou a praticar natação, mas nadar debaixo d’água era muito doloroso para seus pulmões. Mesmo assim, o atleta se recusou a se aposentar sem mais uma medalha. Durante o campeonato seguinte, ele nadou enquanto seu irmão Kamo corria ao longo da piscina, pronto para pular caso Shavarsh perdesse a consciência repentinamente. Mas ele chegou em primeiro e estabeleceu outro recorde mundial. Shavarsh Karepetyan na época que ainda competia profissionalmente A história do resgate heróico de Shavarsh, que era passada de uma pessoa para outra, se tornou uma lenda urbana em Yerevan, embora a imprensa soviética mantivesse tais relatos de acidentes em segredo. O resgate heroico e audacioso dele só foi divulgado apenas seis anos depois, quando o jornal Komsomolskaya Pravda publicou um artigo do jornalista Gennady Bocharov sobre o ocorrido, mas sem mencionar o número de mortos. Após a publicação, cerca de 60 mil cartas de toda a União Soviética chegaram a Shavarsh; muitas delas simplesmente endereçadas à “República Armênia, Yerevan, Shavarsh Karapetyan”. Herói mais de uma vez Por mais improvável que pareça, o resgate do trólebus que quase custou a sua vida não foi a primeira vez que Shavarsh Karapetyan salvou vidas. Em 1974, ele evitou um acidente envolvendo um ônibus que transportava 30 pessoas. O motorista havia estacionado o ônibus para verificar algum problema mecânico, mas deixou o motor ligado. De repente, o ônibus começou a descer uma ladeira em direção a um desfiladeiro na montanha. Karapetyan, que estava no ônibus, quebrou a divisória que separava o compartimento do motorista, agarrou o volante e desviou o veículo do abismo, salvando a vida de todos. E o resgate do trólebus também não foi seu último ato de heroísmo. Em 1985, ele estava perto da Arena Esportiva e de Concertos de Yerevan quando um incêndio começou no prédio. Ele foi uma das primeiras pessoas a correr para ajudar os bombeiros e as pessoas no prédio. Infelizmente, mais uma vez ele precisou ser hospitalizado, já que sofreu queimaduras graves durante a operação de resgate. Karapetyan com algumas das suas medalhas que conquistou durante sua vitoriosa carreira Em 1993, ele se mudou para Moscou com sua esposa e três filhos, onde vive até hoje; na capital russa,
Armênios na Copa do Mundo

Depois de muita espera, a Copa do Mundo do Catar começa no próximo dia 20 de novembro. E veremos em campo mais um jogador armênio disputando a competição mais vista no mundo Assim como no Brasil, o futebol também é uma paixão na Armênia, tendo atualmente como principal jogador do país o craque Henrikh Mkhitaryan. E apesar de a seleção armênia nunca ter disputado uma copa do mundo, jogadores armênios já disputaram a competição mais importante do futebol mundial – inclusive, dois já foram campeões do mundo! Conheça agora mesmo oito jogadores armênios que já disputaram a Copa do Mundo e por quais seleções. Armênios e a seleção do Irã De todas as seleções do futebol mundial que já disputaram a Copa do Mundo, a seleção iraniana é a que mais chama jogadores armênios. Entre eles, há um jogador que disputará a Copa do Catar: o lateral direito Ramin Rezaeian! Nascido em Sari em 1990, Rezaeian é filho de pai armênio e mãe persa e joga pelo clube iraniano Sepahan. Essa será sua segunda Copa do Mundo, já que disputou a edição de 2018. É um jogador muito querido no país e um dos principais jogadores de sua seleção. Ramin Rezaeian, jogador armênio-iraniano que disputará a Copa de 2022 no Catar Mas ele não foi o primeiro. Já em 1974, ano em que o Irã disputou sua primeira Copa, um dos destaques foi o zagueiro Andranik Eskandarian. Nascido em Teerã em uma família armênia, Andranik jogou por dois anos pelo Ararat Tehran, o time da diáspora armênia no país. Com a seleção iraniana, além de disputar a Copa de 74, seu maior feito foi vencer o título da Copa Ásia de 1976. Depois disso, foi jogar nos Estados Unidos, onde reside até hoje – Andranik é pai do também ex-jogador Alecko Eskandarian, que chegou a ser convocado pela seleção americana. Andranik Eskandarian, que disputou a Copa de 1974 na Alemanha Anos depois, em 1998, quem foi convocado foi o meio-campista Alireza Mansourian. Nascido em Teerã, ele jogou no futebol iraniano, alemão, grego, entre outros. Pela seleção iraniana, disputou 46 jogos e marcou oito gols. Atualmente, é treinador. Alireza Mansourian, que disputou a Copa de 1998 na França pelo Irã Já em 2006, na Copa da Alemanha, o destaque fica para o meio-campista Andranik Teymourian, capitão da seleção, que marcou história ao se tornar o primeiro não-muçulmano a ser capitão da seleção iraniana. Nascido em Teerã em 1983 em uma família armênia, ele deu seus primeiros passos no futebol no Ararat Tehran. Em sua carreira, jogou em times iranianos, do Catar e da Inglaterra, onde teve mais destaque. Por sua seleção, ele disputou 101 partidas, marcando nove gols, e disputando as copas de 2006 na Alemanha e 2014 no Brasil, além de ter disputado três Copa da Ásia. Andranik Teymourian, armênio que fez história na seleção iraniana União Soviética Como a Armênia fez parte da União Soviética por décadas, nada mais natural que jogadores armênios tenham disputado a Copa do Mundo pela União Soviética. E o primeiro Armênio a disputar uma Copa do Mundo foi o atacante Eduard Markarov (originalmente, o sobrenome de sua família era Margaryan). Nascido em 1940 em Baku em uma família armênia, Markarov jogou em apenas três times em sua carreira, tendo sem aposentado em um deles: Ararat Yerevan, no qual ele também virou treinador. Ele disputou a Copa de 1996 na Inglaterra, ficando em quarto lugar. O armênio Eduard Markarov, que ficou em quarto lugar na Copa do Mundo de 1966 na Inglaterra Já o primeiro jogador armênio a ter nascido em território armênio e a disputar uma Copa do Mundo foi o meio-campista Khoren Oganesian. Nascido em Yerevan em 1955, começou sua carreira no Ararat Yerevan. Considerado o melhor jogador da Armênia no Século XX, ele foi escolhido o Jogador de Ouro da Armênia pela federação do país para comemorar o Jubileu da UEFA, em 2003, como jogador mais importante dos últimos 50 anos. E em 2010, ele recebeu a Medalha Khorenatsi, a mais alta honraria do país, por sua contribuição à história armênia. Khoren Oganesian, considerado por muitos o melhor jogador armênio de todos os tempos, em jogo comemorativo Campeões E foi na Copa do Mundo de 98, disputada na França, que dois armênios ganharam o tão sonhado título: o atacante Youri Djorkaeff e o meio-campista Alain Boghossian. Filho da armênia Mary Ohanian, Djorkaeff nasceu em 1968 em Lyon. Começou no Grenoble, da França, e depois fez carreira em times da Itália, Inglaterra e Estados Unidos. Pela seleção, disputou 82 jogos e fez 28 gols, tendo disputado as Copas de 1998 – tendo feito, inclusive, um passe para o segundo gol de Zidane na fatídica final contra o Brasil) e de 2002. Após se aposentar em 2006, ele criou a Fundação Youri Djorkaeff em 2014 e atualmente ocupada o cargo de CEO da Fundação FIFA, tendo, inclusive, feito projetos na Armênia. Youri Djorkaeff, ao centro, levantando a taça da Copa do Mundo de 1998 Já Alain Boghossian nasceu em Digne-les-Bains em 1970. Filho de pais armênios, ele recusou diversas vezes o chamado para jogar pela seleção armênia, sempre sonhando em jogar pela França, seu país de nascimento. Iniciou sua carreira em 1988 e jogou profissionalmente até 2003, em países como França, Espanha e Itália. Pela seleção Francesa, disputou 26 jogos, tendo marcado dois gols, e participou das Copas de 1998 (entrando na final) e na de 2002, na Coreia do Sul e no Japão. Alain Boghossian, filho de armênios e vencedor da Copa do Mundo de 1998 pela França Em 2001, Alain Boghossian e Youri Djorkaeff agradeceram ao Presidente Francês da época, Jacques Chirac, pelo reconhecimento oficial do Genocídio Armênio pela França. E apesar dessa longa história de armênios na copa, desejamos sorte ao Brasil na Copa de 2022. Vai, Brasil!
Armênia leva a prata na 44ª Olimpíada de Xadrez

Com longa tradição no xadrez, a equipe masculina armênia levou a prata na competição mais importante do esporte. Saiba um pouco dessa relação de séculos entre os armênios e o xadrez Na 44ª Olimpíada de Xadrez, que foi realizada entre os dias 28 de julho e 10 de agosto em Chennai, na Índia, a equipe masculina da Armênia, que foi representada pelos atletas Gabriel Sargissian, Hrant Melkumyan, Manuel Petrosyan, Samvel Ter-Sahakyan e Robert Hovhannisyan, ficou com o segundo lugar da competição, empatando em números de pontos (19) com o Uzbequistão, país medalhista de ouro. E com 16 pontos, a equipe feminina, que foi representada pelas atletas Elina Danielian, Lilit Mkrtchian, Anna Sargsyan, Mariam Mkrtchyan e Susanna Gaboyan ficou em 12°, alcançando a mesma pontuação da sexta colocada Polônia – quem levou o ouro foi a Ucrânia. Porém, esses ótimos resultados não são nenhuma surpresa, já que a armênia tem uma longa relação com esse esporte, que também é considerado uma arte e uma ciência. Xadrez e os armênios Segundo os historiadores Joseph Orbeli e Kamilla Trever, o xadrez era conhecido na Armênia desde pelo menos o Século IX, durante o domínio árabe, quando o esporte foi trazido à Armênia pelos árabes da Índia. E isso pode ser corroborado por diversos outros indícios históricos: em 1967, peças de xadrez foram escavadas por arqueólogos na cidadela de Dvin, a capital medieval da Armênia, em mais uma das grandes descobertas feitas no país. Mais do que isso, o esporte é mencionado em manuscritos dos Séculos XII e XIII, por grandes nomes como o historiador Vardan Areveltsi e o monge Mkhitar Anetsi. E essa tradição medieval perdurou por bastante tempo, já que até meados do Século XX, os moradores de Shenavan, em Arapan, usavam figuras de xadrez caseiras semelhantes às medievais. Mesmo com essa tradição de séculos, o xadrez começa a se tornar popular na Armênia apenas no início do período soviético, quando a partir de 1926, por iniciativa do químico Simon Hovyan, seções sobre o esporte começam a aparecer em muitos jornais armênios – além disso, Hovyan deu palestras e traduziu livros de importantes autores alemães e russos sobre o tema. Já em 1927, a Federação Armênia de Xadrez foi fundada e as primeiras competições foram realizadas. Porém, apenas em 1934 o primeiro Campeonato Armênio de Xadrez foi realizado. No masculino, o título ficou com Genrikh Kasparyan; já no campeonato feminino, Sirush Makints e Margarita Mirza-Avagian dividiram o título. Em 1936, o primeiro clube de xadrez da Armênia foi fundado em Yerevan e na década de 1950, clubes de xadrez também foram fundados em Leninakan (atual Gyumri) e Kirovakan (atual Vanadzor). Pouco tempo depois, na década 1960, o reconhecimento do esporte na Armênia ganhou força, quando o grão-mestre armênio Tigran Petrosian se tornou o Campeão Mundial de Xadrez. Mesmo com sua pequena população de pouco menos de 3 milhões de habitantes, a Armênia é considerada uma das nações mais fortes do xadrez e, dentre todos os países, o país com mais mestres per capita – desde a o início da década de 1980, todas as cidades e distritos da Armênia Soviética tinham clubes de xadrez. E isso é demonstrado pelos resultados no esporte, já que desde a independência do país em 1991, a equipe de xadrez masculino já ganhou prêmios como o Campeonato Europeu de 1999, o Campeonato Mundial por Equipes de 2011, e a Olimpíada de Xadrez de 2006, 2008 e 2012 – além disso, na Olimpíada, a equipe já levou também a já citada prata em 2022 e o bronze em 1992, 2002 e 2004. E se contarmos a presença de armênios competindo pela União Soviética antes da independência armênia, houve também a participação nos títulos nas Olimpíadas de 1958, 1960, 1962, 1964, 1966, 1968, 1970, 1972, 1980, 1982, 1984, 1986 e 1988. A equipe feminina do país também é muito tradicional e o seu principal título foi no Campeonato Europeu por Equipes de 2003. Com essa relação histórica com o xadrez, em 2011 a Armênia, por meio do Ministério da Educação, deu um passo além e se tornou o primeiro país da história – e o único até hoje – a tornar o esporte parte do currículo da escola primária, junto com matérias como matemática e história – atualmente, com duas aulas semanais, o xadrez é ensinado para alunos do segundo ao quarto ano. E a relação dos armênios com o esporte não é exclusiva aos que nasceram no território armênio: armênios da diáspora se destacam no esporte, como o russo Garry Kasparov – considerado por muitos o melhor da história –, o brasileiro Krikor Mekhitarian, o uruguaio José Bademian Orchanian, entre outros. Já vários armênios nascidos no território armênio hoje competem por outros países, como o caso de Levon Aronian, considerado o melhor enxadrista do país desde Tigran Petrosian. Tricampeão olímpico, ele resolveu defender os EUA a partir de 2021. Com mais de 28 grandes mestres no país, entre homens e mulheres, atualmente os 10 melhores enxadristas armênios, de acordo com o ranking masculino da Federação Internacional de Xadrez, são: Gabriel Sargissian, Haik M. Martirosyan, Shant Sargsyan, Hrant Melkumyan, Karen H. Grigoryan, Samvel Ter-Sahakyan, Sergei Movsesian, Aram Hakobyan, Manuel Petrosyan e Robert Hovhannisyan. Já entre as mulheres, as 10 melhores enxadristas armênias são: Elina Danielian, Anna Sargsyan, Lilit Mkrtchian, Mariam Mkrtchyan, Susanna Gaboyan, Maria Gevorgyan, Siranush Andriasian, Siranush Ghukasyan, Armine Babayan e Anna Khachatryan. Com essa rica história, uma coisa podemos afirmar: no xadrez, ninguém tem uma relação igual de amor, sucesso e admiração como os armênios!