Os Petróglifos da Armênia: uma janela para o passado

Os petróglifos – ou gravuras rupestres – são uma forma de expressão visual ancestral, usada pelos antigos habitantes da humanidade para retratar e registrar eventos, crenças e aspectos do cotidiano. E como a Armênia é um dos lugares habitados mais antigos do planeta, lá não poderia ser diferente, claro. Segundo Karen Tokhatyan, pesquisador da Academia Nacional de Ciências da República da Armênia e especialista no assunto, essas gravações rupestres representam uma necessidade inerente do ser humano de documentar o que via e vivia, seja por meio de palavras ou imagens. Exemplo de petróglifos em Ukhtasar, na Armênia No passado, os petroglifos serviam como uma forma primitiva de comunicação. Muitos deles contêm símbolos especiais que descrevem fenômenos naturais, rituais e atividades humanas. Essas representações são verdadeiros tesouros históricos, pois revelam detalhes sobre o cotidiano, as tradições e a percepção espiritual dos povos antigos. Estima-se que a Armênia abriga entre 20 e 30 mil petroglifos espalhados pelo território. Petróglifos na Armênia Os petroglifos armênios remontam ao Neolítico, Eneolítico e Idade do Bronze. Harutyun Martirosyan, renomado estudioso do tema, argumenta que a arte rupestre da Armênia reflete as mudanças na percepção humana da natureza ao longo dos séculos. Com o tempo, as representações ganharam complexidade, incluindo cenas de caça e combate, em que figuras humanas assumem um papel central. Entre os locais com maior concentração dessas gravuras, destacam-se: Montes Geghama: Abrigam a maior parte dos petróglifos do país, considerados verdadeiros santuários dos caçadores-coletores da antiguidade. Montanhas Vardenis, Vayots Dzor e Syunik: Situadas próximas ao Lago Sevan, também apresentam um grande número de registros rupestres. Ukhtasar: Um dos locais mais impressionantes, com mais de 2.000 petróglifos datados entre os milênios V e II a.C. Monte Sartsali: Apesar de menos estudado, é um dos locais recentes de descoberta de petróglifos. Arte rupestre no Monte Sartsali Os petróglifos dos Montes Geghama Os petróglifos da região de Geghama retratam diversos animais, como bisões, veados, alces, cavalos selvagens, lobos, linces, leões e leopardos, muitos dos quais não existem mais na Armênia. As cenas de caça encontradas nessas gravuras fornecem informações valiosas sobre as atividades econômicas da época, como a domesticação de animais e a sobrevivência em um ambiente hostil. Martirosyan destaca uma gravura específica encontrada no Monte Pokr Paytasar, que mostra um dragão de duas cabeças com um corpo em forma de disco, simbolizando uma figura humana. Essa imagem está associada a antigas lendas e mitos armênios. Arte rupestre nos Montes Geghama Os misteriosos petróglifos de Ukhtasar Ukhtasar abriga uma vasta coleção de petroglifos que ilustram caçadores, cerimônias religiosas e fenômenos astronômicos. Algumas dessas gravuras mostram figuras humanoides com características solares e elétricas, lutando contra dragões. Segundo Martirosyan, esses registros podem estar ligados a antigas divindades do sol e do trovão. Uma das imagens mais intrigantes de Ukhtasar representa uma figura humana forte e destemida, que pisa a cabeça de um dragão. Essa representação pode simbolizar um herói mitológico triunfando sobre uma criatura demoníaca. Arte rupestre encontrada em Ukhtasar As descobertas em Sartsali Recentemente, foram encontrados vários petroglifos ao pé do Monte Sartsali. Embora sua datação ainda seja incerta, acredita-se que sejam mais recentes em comparação aos demais. Como ainda não foram amplamente estudados, os especialistas esperam que essas gravuras forneçam novas pistas sobre a evolução da arte rupestre na região. Arte rupestre encontrada em Artsali Distribuição geográfica dos petróglifos na Armênia Essas artes fascinantes estão espalhados por praticamente toda a Armênia. Entre os locais onde essas gravuras podem ser encontradas, destacam-se: Yerevan (Distrito de Avan) Região de Ararat (Floresta de Khosrov) Armavir (Metsamor, Mosteiro de Santa Shushanik) Aragatsotn (Monte Aragats, Mastara, Voskehat, entre outros) Shirak (Tirashen, Anipemza, Yererouk, etc.) Lori (Loriberd, Koghes, Neghots) Tavush (Vila Gosh) Kotayk (Zovuni, Geghard, Bjni, entre outros) Gegharkunik (Lchashen, Sevsar, Vardenis Pass) Syunik (Ukhtasar, Krahunj, Monte Navasar). Esses petróglifos são uma valiosa fonte de informações sobre a história, a cultura e as crenças dos povos antigos que habitavam a região que hoje se encontra a Armênia. Essas gravuras não só documentam a vida cotidiana dos ancestrais armênios, mas também oferecem uma visão fascinante sobre seus mitos e interações com o ambiente. Além disso, provam, de forma irrefutável, como a Armênia possui uma das regiões habitadas mais antigas do mundo. E mais: os petróglifos armênios também desempenham um papel fundamental na compreensão da evolução da linguagem visual humana. Eles mostram como os primeiros habitantes da região desenvolveram formas de comunicação simbólica muito antes da invenção da escrita formal. Algumas dessas representações podem ser interpretadas como uma linguagem pictográfica primitiva, com padrões recorrentes que sugerem uma tentativa sistemática de transmitir informações. Também, os petróglifos podem ter servido a propósitos religiosos e ritualísticos, indicando uma profunda conexão entre arte, espiritualidade e crenças astrológicas. Com o avanço das pesquisas arqueológicas e o uso de tecnologias modernas, como a datação por carbono e a fotogrametria, novas descobertas podem trazer ainda mais luz sobre o significado e a função dessas gravuras na sociedade antiga armênia. Gravura encontrada na Armênia
Diana Abgar: a primeira diplomata

Diana Abgar (Anahit Aghabekyan) foi uma mulher extraordinária cuja vida e legado continuam a inspirar gerações. Nascida em 17 de outubro de 1859 em Rangum, Birmânia (atual Yangon, Mianmar), seu pai era um armênio de Nova Julfa, Irã; já sua mãe era da tradicional família Tateos Aventum de Shiraz, uma cidade também no Irã. Ela pertencia à família Aghabekyan, cujos ancestrais foram deportados de Dzhugha para a Pérsia durante o reassentamento em massa de armênios por ordem do Xá Abbas em 1604-1605. Diana era a mais nova dos sete filhos da família, que havia se mudado para o Sudeste Asiático antes de seu nascimento. O fato de ser armênia influenciou profundamente sua identidade, trabalho, visão de mundo e o caminho que ela seguiria na vida. Diana Abgar Formação e desafios iniciais (1991 – 1994) Criada em Calcutá, Índia, Diana recebeu sua educação em uma escola de convento local, onde se tornou fluente em inglês, armênio e hindustani. Em 1889, ela se casou com o comerciante armênio – radicado em Hong Kong – Mikhael Abgar (Abgaryan), cuja família também tinha origens na Pérsia. À época do casamento, Diana tinha aspirações de se tornar escritora e mais tarde o casal se mudou para Kobe, Japão, onde estabeleceu um negócio comercial bem-sucedido. Diana e Mikhael no Japão No Japão, se tornaram figuras influentes na comunidade armênia do país. Apesar das tragédias pessoais, incluindo a perda de dois de seus cinco filhos, Diana começou sua carreira literária, publicando “Suzan”, seu primeiro romance, na terra do sol nascente. Em seus trabalhos, ela escreveu extensivamente sobre assuntos como a situação dos oprimidos, relações internacionais e as consequências do imperialismo. Abgar começou sua carreira literária no Japão, publicando seu primeiro romance “Suzan” em 1882. Ela escreveu extensivamente sobre tópicos como a situação dos oprimidos, relações internacionais e as consequências do imperialismo. Uma diplomata sem país Infelizmente, foi no Japão que Mikhael, seu marido, faleceu repentinamente, deixando Diana com dívidas (após duas falências do casal) e três filhos em uma terra estrangeira. Ela teve que sustentar sua família e estabilizar o negócio (eventualmente tornando-o um sucesso), mas ela ainda queria concentrar sua energia em outro lugar. A área que clamava por atenção era o Oriente Médio. O enfraquecido Império Otomano estava perdendo uma província após a outra, enquanto Grécia, Bulgária e Macedônia estavam recuperando sua independência. A suspeita e a hostilidade do governo otomano em relação às minorias restantes aumentaram constantemente. Os massacres armênios de 1895-96 e 1909 reuniram considerável cobertura da mídia, mas nenhum país fez nada parar mudar essa situação. Durante a Primeira Guerra Mundial, período em que o Genocídio Armênio se iniciou, o objetivo de Diana estava definido: o povo armênio, seu povo, precisava dela, e ela comprometeu sua paixão e idealismo à causa dos armênios. Ela apelou para sociedades de paz e enviou seus artigos para os principais jornais europeus e americanos, defendendo seu caso: o direito dos armênios à “segurança de vida e propriedade no solo de seu próprio país”. Ela se correspondeu com o fundador da Universidade de Stanford, David Starr Jordan, o presidente da Universidade de Columbia, Nicholas M. Butler, o secretário de Estado dos EUA, Robert Lansing, e dezenas de outros — jornalistas, missionários, políticos. Além disso, ela dava palestras sobre o povo armênio e escrevia para jornais famosos como The Japan Gazette, The Times, Le Figaro e outros. E cem anos antes do surgimento das mídias sociais, Diana criou uma extensa rede de conexões, argumentando repetidamente que se nada fosse feito para proteger os armênios, novos massacres aconteceriam. Além da morte de 1,5 milhão de armênios durante o Genocídio Armênio, centenas de milhares de sobreviventes fugiram em todas as direções, incluindo o Cáucaso. Alguns deles continuaram para o norte, para a Rússia, apenas para encontrar o país no meio da sangrenta revolução bolchevique. Os refugiados não podiam voltar, e não podiam ir para o oeste, para a Europa, por causa da Primeira Guerra Mundial; e então eles escolheram uma direção inesperada — Leste, através da infinita Sibéria, até o Oceano Pacífico. Como não havia navios para levá-los para a América da cidade portuária russa de Vladivostok, eles precisavam ir para o Japão. Devido aos apelos e garantias de Diana às autoridades japonesas, os refugiados armênios receberam asilo temporário no Japão. Diana alugou casas para abrigar os refugiados e matriculou seus filhos na escola. Ela ajudou com vistos e documentos, e se tornou a representante japonesa da Cruz Vermelha Americana de Vladivostok; ela localizou parentes de refugiados nos Estados Unidos e negociou ferozmente com as companhias de navios a vapor, que estavam lotadas além da capacidade para os meses seguintes, já que muitas embarcações tinham sido realocadas para servir aos fins da guerra. Usando seus próprios recursos para ajudar as pessoas, Diana estava agindo como uma embaixadora de fato do estado inexistente da Armênia. Seus esforços para ajudar os armênios e conscientizar o mundo dos horrores do genocídio também estavam presentes na literatura: até 1920, ela havia escrito mais de nove livros sobre Genocídio Armênio e clamando por reconhecimento e justiça internacionais. Imagem de um de seus livros sobre o Genocídio Armênio Pioneira na diplomacia Em 1918, o Império Otomano perdeu a guerra e ao mesmo tempo a Rússia estava em uma guerra civil. Isso criou um vácuo de poder no Cáucaso, permitindo que um novo país surgisse no dia 28 de maio — a Primeira República da Armênia. No início, a Armênia não foi reconhecida por nenhum estado internacional. No entanto, em 1920, por meio dos esforços de Diana Abgar, o Japão se tornou a primeira nação a reconhecer a independência da nova república. Assim, em respeito aos seus esforços, Hamo Ohanjanyan, que era então o Ministro das Relações Exteriores da República, nomeou Diana como Cônsul Honorária no Japão. Essa nomeação tornou Diana a primeira mulher diplomata armênia e uma das primeiras na história. No entanto, após a queda da Primeira República da Armênia, em 1920, seu posto foi abruptamente encerrado. Passaporte diplomático de Diana Abgar Em 1926, o Patriarca Supremo
Dia Nacional das Forças Armadas da Armênia

Hoje, 28 de janeiro, é celebrado o Dia Nacional das Forças Armadas da Armênia, que comemora a formação, em 1992, daqueles que defendem a Armênia. As Forças Armadas da República da Armênia (em armênio: Հայաստանի Հանրապետության զինված ուժեր; transliterado: Hayastani Hanrapetut’yan zinvats uzher) podem ser divididas em duas formas: as forças terrestres e a força aérea – por não ter acesso ao mar, a Armênia não tem marinha. E apesar do exército atual ter sido formado apenas em 1992, ele pode ser rastreado até a fundação da Primeira República da Armênia, em 1918. Porém, hoje, apenas falaremos do exército moderno e de seus 33 anos de história. Brasão das Forças Armadas da Armênia Formação e desafios iniciais (1991 – 1994) O Exército moderno da Armênia nasceu da necessidade no início dos anos 1990, quando o país emergiu do colapso da União Soviética e se viu diante de ameaças existenciais imediatas, principalmente em conflitos com o vizinho Azerbaijão, que clamava o território armênio de Artsakh (Nagorno-Karabakh). Sua formação e desenvolvimento estão profundamente ligados a esse conflito, que foi uma importante luta pela autodeterminação da população armênia da região e se tornou uma característica definidora da história pós-independência da Armênia. Soldado armênio durante a Primeira Guerra de Nagorno-Karabakh, em 1991 Quando a Armênia declarou sua independência em 21 de setembro de 1991, o país herdou da União Soviética uma situação de segurança precária. O novo Estado não possuía um exército organizado e, além disso, suas fronteiras estavam sob ameaça do vizinho Azerbaijão, que estava envolvido em uma guerra em grande escala por Artsakh. O conflito havia começado em 1988, quando a população majoritariamente armênia de Nagorno-Karabakh, uma região autônoma dentro da República Socialista Soviética do Azerbaijão, buscou se unir à Armênia ou buscar sua independência. Porém, graças aos ataques por parte do Azerbaijão, a escalada se transformou em um conflito. Em resposta, a Armênia começou a formar seu exército nacional a partir dos remanescentes das unidades militares soviéticas estacionadas em seu território. Muitas dessas unidades estavam subequipadas e com poucos efetivos, mas serviram como base para o recém-formado Exército da Armênia. Recém-formado Exército da Armênia, ainda em seus estágios iniciais Voluntários, incluindo veteranos da Guerra Soviética no Afeganistão, desempenharam um papel crucial nos primeiros estágios de desenvolvimento do exército. O governo também estabeleceu o Ministério da Defesa em 1992, com Vazgen Sargsyan, um proeminente líder militar, à sua frente – anos depois Sargsyan se tornou Primeiro-Ministro. Vazgen Sargsyan, o primeiro Ministro de Defesa da Armênia Como mencionado acima, o primeiro grande teste do Exército Armênio ocorreu durante a Primeira Guerra de Nagorno-Karabakh (1988-1994). Lutando ao lado das forças da autoproclamada República de Artsakh (Nagorno-Karabakh), o Exército Armênio enfrentou um exército azerbaijano melhor equipado, que era apoiado por mercenários estrangeiros e recursos externos. Apesar das desvantagens, as forças armênias alcançaram vitórias significativas, como a captura de Shushi em 1992 e a defesa de Lachin, que garantiu um corredor vital conectando a Armênia a Artsakh. A guerra culminou em uma vitória decisiva da Armênia em 1994, após um cessar-fogo mediado pela Rússia. Naquele momento, as forças armênias não apenas haviam garantido o controle de Artsakh, mas também ocupado vários territórios ao redor. Essa vitória solidificou a reputação do Exército Armênio como uma força combatente capaz e determinada, mas também deixou o país em um estado de conflito prolongado com o Azerbaijão. Porém, o que importava era uma Artsakh autônoma e livre, como queria o povo armênio que lá vivia há milhares de anos. Modernização (1994 – 2020) Nos anos que se seguiram ao cessar-fogo, o Exército Armênio passou por reformas significativas e um processo de modernização. O governo priorizou os gastos com defesa, alocando uma parcela substancial do orçamento nacional para o setor militar. Esse investimento permitiu que a Armênia adquirisse novos equipamentos, melhorasse o treinamento e fortalecesse suas capacidades defensivas. Esse movimento era importante, já que o Azerbaijão continuava com suas ameaças. Por isso, durante esse período, o Exército Armênio concentrou-se em manter uma postura defensiva ao longo da Linha de Contato com o Azerbaijão, que permaneceu tensa apesar do cessar-fogo. Confrontos em menor escala na fronteira era comum, mas nunca haviam acabado. Em 2014, por exemplo, 33 armênios morreram por esses conflitos. E mesmo com as constantes ameaças e ataques do Azerbaijão, o Exército Armênio também desempenhava um papel fundamental no apoio à República de Artsakh. Exército da Armênia em 2014, em treinamento com o Exército de Artsakh Segunda Guerra de Nagorno-Karabakh (1920) A relativa estabilidade do período pós-guerra foi abalada em setembro de 2020, quando o Azerbaijão lançou uma ofensiva em grande escala contra Artsakh – o Azerbaijão foi apoiado pela Turquia e tinha equipamentos modernos, todos fornecidos por Israel. O conflito, chamado de Guerra dos 44 Dias, foi um lembrete brutal dos desafios diários enfrentados pelas Forças Armadas da Armênia. Apesar da resistência feroz, as forças armênias e de Artsakh foram superadas pelo poder de fogo do Azerbaijão, que contou com extenso uso de drones e de artilharia de longo alcance. A guerra terminou em novembro de 2020 com um cessar-fogo mediado pela Rússia. Infelizmente, os armênios de Artsakh perderam importantes cidades, como Shushi. Vale lembrar que o ataque do Azerbaijão se deu no auge da pandemia da COVID-19, o que foi um duro golpe para a Armênia, já que tinha que lidar com o conflito e o vírus. Além disso, armênios de outras partes do mundo não puderam defender a Pátria Armênia, devido às restrições da pandemia. Uma das fotos mais simbólicas do conflito de 2020 Desafios pós-2020 Após o conflito e derrota de 2020, a Armênia embarcou em um programa abrangente de reformas militares. O governo reconheceu a necessidade de modernizar o exército, melhorar seu treinamento e equipamento e corrigir as deficiências expostas durante o conflito. As principais iniciativas incluíram: Aquisição de Novos Sistemas de Armas: A Armênia começou a diversificar suas fontes de equipamentos militares, adquirindo drones, mísseis antitanque e outros sistemas avançados de países como a Índia e a Rússia. Fortalecimento da Defesa Aérea:
Taraz: um símbolo tradicional armênio

Em uma nação onde tradição e cultura são parte essenciais da vida, o taraz – a vestimenta tradicional armênia – é um símbolo de elegância e um patrimônio passado de geração em geração. As roupas vibrantes e únicas da Armênia não só resistiram ao tempo, mas também se transformaram em um meio para a expressão artística contemporânea. Vamos investigar mais abaixo a história rica do taraz armênio. Desenho com alguns modelos de taraz A história do taraz A história do taraz armênio, ou o intricado e multifacetado traje tradicional do povo armênio, remonta a séculos e incorpora a essência da identidade armênia. Na verdade, a palavra “taraz” – que significa “maneira” ou “forma” – tem origens no idioma farsi. Como a história armênia abrange milênios, a arte do taraz evoluiu graciosamente através de fases distintas, adaptando-se naturalmente aos estilos em mudança. Cada região da Armênia Oriental e Ocidental tinha sua própria tradição distinta de taraz, que evoluiu em paralelo com o contexto histórico e regional. Modelo de taraz O taraz não se refere a uma ou duas peças de vestuário, mas sim a uma coleção de peças, incluindo vestidos, roupas íntimas, chapéus, calçados e acessórios. No início, a maioria dos elementos do taraz eram feitos de lã, algodão e pele. Com o tempo, a seda importada da China na Rota da Seda foi usada pela realeza. As cores, o tecido e a ornamentação do Taraz foram detalhados e intencionais. De acordo com o filósofo armênio do século XIV, Grigor Tatevatsi, as cores representavam os quatro elementos da Terra. O preto representava a terra, o branco representava a água, o vermelho simbolizava o ar e o amarelo refletia o fogo. Magenta simbolizava prudência e sabedoria. O vermelho também representava bravura e martírio, e o branco frequentemente representava pureza. O amarelo raramente era usado; em vez disso, tons de ocre eram proeminentes. O azul raramente era usado, pois simbolizava luto e sofrimento. Os elementos do design também informavam ao observador fatos importantes sobre quem o usava, como estado civil, número de filhos, riqueza e região de origem. Além de sua beleza especial na celebração do casamento de quem o usava, o taraz nupcial tinha como objetivo afastar o mal. Você pode ver um vestido de noiva e acessórios lindamente preservados no Museu de História de Yerevan. Depois do casamento, as mulheres frequentemente usavam um chapéu em forma de torre, decorado com fitas ou detalhes prateados. Cobrindo metade da testa, o chapéu foi então envolto em tecido branco para mantê-lo no lugar. Em todo o mundo armênio, as mulheres sempre usavam avental. Estes variavam em estilo, alguns cobrindo apenas a saia e outros o vestido inteiro. Uma árvore da vida ou ícones domésticos eram frequentemente bordados neles. Um avental vermelho significava o status de casado de quem o usava; se as mulheres sofressem de infertilidade, trocariam frequentemente os seus aventais vermelhos por azuis. As roupas das mulheres mais ricas ostentavam bordados de fios prateados e dourados. Cintos, colares, brincos e tiaras prateados acrescentaram beleza e sofisticação ao look. Os homens frequentemente usavam calças largas e um caftã com cinto sobre uma camisa bordada. Um cinto prateado significava maturidade e um cinto dourado, riqueza. Os chapéus variavam de acordo com a região. Alguns tinham formato de cone, outros eram feitos de pele e outros ainda tinham topo plano e bordados com motivos regionais tecidos. Taraz utilizado por um casal armênio A evolução do taraz Você pode observar vários trajes preservados de taraz em museus por toda a Armênia. Em Yerevan, visite o Museu de História da Armênia, o Museu de História de Yerevan, o Museu de Etnografia Armênia, o Museu de Artes Folclóricas e o Museu e Café de Arte Lusik Aguletsi. Em outras regiões, você pode visitar o Museu de Arquitetura Nacional e Vida Urbana em Gyumri, o Museu de Lore Local de Lori-Pambak em Vanadzor, o Museu de Lore Local e Galeria de Arte de Dilijan e o Museu de Lore Local de Goris. Artesãos e designers reconheceram a importância de celebrar a herança do taraz, garantindo que ela permaneça relevante e apreciada tanto pelos habitantes locais como pela comunidade global. Ao longo dos anos, eles encontraram maneiras de incorporar elementos tradicionais de roupas atemporais em roupas modernas. Esta fusão do antigo e do novo deu origem a uma infinidade de estilos que atendem a diferentes gostos e preferências. O bordado, parte integrante de taraz, também evoluiu, incorporando padrões modernos ao lado de motivos que carregam um profundo significado cultural. No verão, você pode desfrutar de designs históricos e contemporâneos no anual Festival Taraz, um evento que celebra todas as coisas do taraz. O evento inclui uma exposição, danças tradicionais utilizando o taraz, além de exposição de coleções de designers. Vista você mesmo o taraz Uma bela maneira de vivenciar o taraz ao máximo é experimentar você mesmo! Você terá a oportunidade de fazer isso em vários locais doa Armênia. Equipes dos estúdios fotográficos que oferecem este serviço mostrarão uma variedade de estilos do taraz de diferentes regiões e oferecerão acessórios que melhor combinem. Vestido com perfeição, você pode fazer uma sessão de fotos com seus amigos e familiares ao lado de artefatos históricos como móveis de madeira, tapetes ou armas. As fotografias serão memórias preciosas que sempre o lembrarão da sua visita à Armênia. A ideia de atacar e eliminar Talaat, o Ministro do Interior do Império Otomano que ordenou a prisão e deportação dos armênios, surgiu para Tehlirian em 1916, quando, como jovem voluntário, retornou a sua cidade natal e viu a casa de seus pais saqueada e em ruínas. Esse evento lhe causou um forte estresse mental e fez com que perdesse a consciência, tendo visões de sua mãe assassinada. Soghomon Tehlirian não conhecia Talaat pessoalmente, nunca o encontrou cara a cara e nem falava alemão. Ele contava com uma equipe profissional que já havia realizado um extenso trabalho de reconhecimento e organização em Berlim para ajudá-lo a cumprir a missão que lhe foi confiada
O Herói Soghomon Tehlirian

Hoje, dia 21 de março, relembramos o ato de Soghomon Tehlirian, que há 103 anos assassinava Talaat Pasha, um dos mentores do Genocídio Armênio. Nascido no dia 2 de abril de 1896 na aldeia de Nerkin Bagarich, na região de Erzurum – na atual Turquia -, cresceu nas proximidades de Erzincan (Yerznga). Ele começou sua educação em uma escola evangélica em Erzincan, depois frequentou a Escola Ketronakan de Constantinopla. Como seu pai havia se mudado para a Sérvia, ele foi estudar engenharia no país e tinha como planos futuros continuar seus estudos na Alemanha. Em 1914, ano que estourou a Primeira Guerra Mundial, ele estava estava em Valjevo, Sérvia, e no outono daquele ano dirigiu-se à Rússia e juntou-se ao exército para servir numa unidade voluntária na Frente do Cáucaso contra os turcos. Soghomon Tehlirian como voluntário em 1915 Em junho de 1915, em pleno Genocídio Armênio, que havia começado em 24 de abril do mesmo ano, a polícia otomana ordenou a deportação de todos os armênios em Erzincan. A mãe de Tehlirian, três irmãs, o marido de sua irmã, seus dois irmãos e uma sobrinha de dois anos foram deportados. Mais do que isso, ele testemunhou o assassinato de sua mãe e de seu irmão, ao mesmo tempo em que viu o estupro e assassinato de suas três irmãs. Ao todo, Tehlirian perdeu 85 membros da família no Genocídio Armênio. Durante os ataques, ele foi atingido na cabeça e deixado para morrer. Ele sobreviveu e fugiu para Tbilisi, Geórgia, onde se juntou à ARF (Federação Revolucionária Armênia). Soghomon Tehlirian em 1922 Após o fim da Primeira Guerra Mundial e a derrota otomana no conflito, o novo governo otomano, sob pressão dos Aliados, decidiu processar membros do governo dos Jovens Turcos e do comitê central do Partido União e Progresso por terem envolvido o Império Otomano na guerra, além de organizar a deportação e o massacre dos Armênios. No entanto, os principais responsáveis dos Jovens Turcos (Mehmet Talaat, Ismail Enver, Ahmed Cemal, Behaeddin Shakir, Mehmet Nazim, Osman Bedri e Hussein Azmi) conseguiram escapar da responsabilidade criminal ao embarcar em um navio de guerra alemão em 1º de novembro de 1918. No outono de 1919, durante a 9ª assembleia geral da Federação Revolucionária Armênia (ARF) em Yerevan, uma missão especial altamente secreta foi criada, sob liderança de Armen Garo, Embaixador da Armênia nos Estados Unidos. Conhecida como Hatuk Gortz – ou Operação Nemesis -, a missão tinha o objetivo de encontrar e punir os responsáveis pelos massacres armênios, especialmente os líderes dos Jovens Turcos. A ideia de atacar e eliminar Talaat, o Ministro do Interior do Império Otomano que ordenou a prisão e deportação dos armênios, surgiu para Tehlirian em 1916, quando, como jovem voluntário, retornou a sua cidade natal e viu a casa de seus pais saqueada e em ruínas. Esse evento lhe causou um forte estresse mental e fez com que perdesse a consciência, tendo visões de sua mãe assassinada. Soghomon Tehlirian não conhecia Talaat pessoalmente, nunca o encontrou cara a cara e nem falava alemão. Ele contava com uma equipe profissional que já havia realizado um extenso trabalho de reconhecimento e organização em Berlim para ajudá-lo a cumprir a missão que lhe foi confiada O Ministro do Interior do Império Otomano, Talaat Pasha Talaat havia mudado seu nome e vivia em Berlin com sua esposa sob o nome de Ali Salih Bey; na capital alemã, residia em um luxuoso apartamento alugado de nove quartos na Rua Hardenberg. Segundo rumores, Ali Salih era um ex-comerciante falido que administrava um café oriental na cidade. O apartamento foi providenciado para eles pela embaixada turca. Talaat também mudou sua aparência, optando por usar um chapéu europeu em vez de seu fez turco característico. A busca por Talaat foi coordenada a partir de Boston, onde telegramas codificados eram regularmente enviados. Tehlirian conseguiu alugar um apartamento próximo ao de Talaat e observou-o de perto por vários dias. Vingança Finalmente, Talaat foi identificado e sua identidade foi meticulosamente confirmada para garantir que ninguém fosse ferido acidentalmente durante a operação. Sua execução ocorreu em 15 de março de 1921, um dia antes da assinatura do Tratado Antiarmênio de Moscou. A escolha da data não foi aleatória, pois coincidiu com a Conferência Russo-Turca de Moscou (26 de fevereiro a 16 de março de 1921), que resultou no Tratado de Amizade e Irmandade entre os Bolcheviques e os Kemalistas, decisivo para a questão dos territórios armênios sem a participação armênia. Naquela manhã, Soghomon Tehlirian assassinou com um único tiro Talaat Pasha, o principal arquiteto do Genocídio Armênio, na Rua Hardenberg, em plena luz do dia. Na época, apenas Tehlirian sabia que a vítima era Talaat. Após o assassinato, Tehlirian não fugiu e foi preso no local do crime e levado à delegacia local para interrogatório. Devido à sua limitada habilidade com o idioma alemão, ele solicitou que o interrogatório fosse conduzido em armênio, com a ajuda de um tradutor – ele afirmou que agiu sozinho em um ato de vingança pessoal e não teve cúmplices. O corpo de “Ali Salih” foi identificado por seu antigo amigo Behaeddin Shakir, que confirmou que a vítima era o ex-líder otomano. Taalat Pashat foi enterrado cinco dias após sua morte, já que as autoridades turcas proibiram seu enterro em sua terra natal. Na Alemanha, seus antigos aliados organizaram um funeral luxuoso para ele em Berlim, com muitas coroas de flores, visitantes turcos de diferentes países, discursos e declarações anti-armênias. Julgamento Durante o o julgamento em Berlim, que foi realizado nos dias 2 e 3 de junho de 1921, testemunharam um oficial alemão de alto escalão, Liman von Sanders, o conhecido ativista pró-armênio Johannes Lepsius e sobreviventes do Genocídio Armênio. Tehlirian foi representado por advogados proeminentes: os consultores jurídicos Adolf von Gorton e Johannes Werthauer,além do Professor de Direito da Universidade de Kiel, Dr. Kurt Niemeyer. Eles utilizaram telegramas originais para provar as ações de Talaat, nos quais o antigo Ministro do Interior do Império Otomano ordenava a deportação e
Inventores armênios e suas criações

Armênios deram à humanidade contribuições tecnológicas únicas. E elas mudaram o mundo em que vivemos Desde o começo de sua história, o povo armênio tem sido inovador e criativo. Não por acaso, grandes descobertas foram feitas na região que historicamente foi habitada por armênios, como o vinícola mais antiga do mundo, o sapato mais antigo, a saia mais antiga, entre outros. E, ainda hoje, os armênios continuam a surpreender o mundo com suas invenções, que de muitas maneiras tornaram nossas vidas mais fáceis e que ainda impactam positivamente como vivemos. Principais invenções O ano é 2022 e você espera o início da Copa do Mundo, aguardando ansiosamente por um jogo do Brasil que será transmitido ao vivo e em cores. E se podemos torcer pela amarelinha desse jeito, é graças ao armênio Hovannes Adamian, o inventor da primeira televisão em cores. Nascido em 1879 no então Império Russo, Adamian era engenheiro e criou mais de 20 invenções, tendo sido o primeiro no mundo a obter resultados práticos na televisão em cores. E apesar de a primeira televisão em cores ter sido exibida em 1928 em Londres, com base em seu princípio tricolor, já em 1925, em Yerevan, ele havia demonstrado o “Eristavi”, um dispositivo para transmissão de imagens coloridas, que utilizava uma tela para exibir uma série de figuras e padrões coloridos que estavam sendo transferidos em um laboratório ao lado. Hovannes Adamian faleceu em 1932 em São Petersburgo, onde foi enterrado no cemitério armênio local. Em 1970, seus restos mortais foram levados para o Panteão dos famosos armênios, que está localizado em Yerevan. E se hoje podemos combater doenças e termos uma vida mais saudável e longeva, temos que agradecer ao armênio-americano Raymond Vahan Damadian, o inventor da ressonância magnética, que é uma técnica de imagem médica usada para formar imagens da anatomia e dos processos fisiológicos do corpo, tanto na saúde como na doença. Filho de uma família tradicional armênia, Damadian nasceu em 1936 e se formou em medicina em 1960. Graças a sua pesquisa sobre sódio e potássio em células vivas, ele conseguiu realizar seus primeiros experimentos com ressonância magnética em 1969, descobrindo que tumores e tecido normal podiam ser distinguidos nas imagens. E foi em 1977 que ele se tornou a primeira pessoa do mundo a realizar uma ressonância de corpo inteiro para diagnosticar um câncer, mudando, assim, a humanidade para sempre. Vencedor de diversos prêmios por sua principal obra, Raymond Damadian faleceu em agosto de 2022. Ainda no campo da medicina, outra contribuição sem igual na humanidade veio do armênio Varaztad Kazanjian, considerado o pai da cirurgia plástica moderna. Nascido no então Império Otomano em 1879, Kazanjian foi um fugitivo dos massacres hamidianos e chegou aos Estados Unidos em 1895 como refugiado. Lá, se graduou em medicina em Harvard em 1905 e logo se estabeleceu como um talentoso cirurgião maxilofacial e se tornou um revolucionário no campo da cirurgia plástica, principalmente graças ao uso inovador da tecnologia médica na eliminação de deformidades faciais e reconstrução de rostos após lesões. Porém, foi apenas na Primeira Guerra Mundial que ele se destacou, após tratar mais de três mil casos de ferimentos no rosto no campo de batalha. Primeiro professor de cirurgia plástica de Harvard e primeiro autor de um livro sobre o assunto, Varaztad Kazanjian faleceu em 1974. Seu legado à humanidade é tão incalculável que, não à toa, Sigmund Freud, o pai da psicanálise, o chamava de “mágico”. Claro que o mundo avança e hoje, graças aos cartões e ao Pix, dependemos cada vez menos do dinheiro físico. Mas nem sempre foi assim e foi um armênio que facilitou – e ainda facilita – a nossa vida nesse sentido: Luther George Simjian, o inventor do caixa eletrônico. Nascido em 1905 no então Império Otomano, Simjian viveu em sua terra natal até os nove anos de idade, quando ele e sua família tiveram que fugir para a Síria devido ao Genocídio Armênio. Chegou aos Estados Unidos em 1920, país em que viveu até o restante de sua vida. Lá, começou a trabalhar na Escola de Medicina de Yale como técnico no laboratório de Yale, uma área em que fez grande parte de suas invenções. Dentre elas, se destacam a câmera que autofotografa, que foi patenteada em 1929, e uma câmera com autofoco, que foi patenteada em 1931. Com suas invenções principalmente relacionadas à ótica e eletrônica, em 1934 ele criou o primeiro raio x colorido e durante a Segunda Guerra Mundial ele inventou o primeiro simulador de voo da história para treinar pilotos que lutariam na guerra. Um inventor ativo e profissional, Simjian patenteou mais de 200 invenções, mas a mais lembrada por todos é o caixa eletrônico, já que ele introduziu a ideia que, em suas próprias palavras, seria de “uma máquina em um buraco na parede que permitiria aos clientes fazer transações financeiras” – essa criação foi patenteada em 1960. Em 1998, um ano após sua morte, o New York Times escreveu que essa máquina era sua invenção mais famosa e a “base para os onipresentes caixas eletrônicos”, do qual ele nunca recebeu um centavo por isso. E ainda temos muitas invenções feitas por armênios que não citamos, como a primeira orquídea híbrida, criada pela hortoculturista Agnes Joaquim, o secador de cabelo, criado por Gabriel Kazanjian, e o primeiro astromóvel (também conhecido como rover planetário, ou seja, um veículo de exploração espacial), criado por Alexander Kemurdzhian. Graças a esses armênios, temos nossas vidas melhoradas! E fique de olho aqui, em breve faremos a parte dois dos maiores inventores armênios e suas criações!
Areni-1 e suas incríveis descobertas

Um dos povos mais antigos do mundo, os armênios já deram grandes contribuições à humanidade. Várias delas foram encontradas nesse complexo de cavernas Quando pensamos em algo simples e corriqueiro como um simples sapato, é natural imaginarmos que ele sempre esteve presente, de alguma forma, na história humana. Mas não é bem assim. O sapato está presente entre nós há “apenas” alguns milhares de anos, assim como diversas outras coisas importantes para nós. E todos têm algum em comum: foram criados e descobertos na região que historicamente vivem os armênios, um povo milenar e ainda muito criativo! Areni-1 A evidência de que a Armênia foi habitada desde os tempos antigos está espalhada por toda a região. E uma dessas provas está justamente no complexo de cavernas Areni-1, que também é conhecida como Caverna dos Pássaros (“Trchuneri”, em armênio). Localizada perto da cidade de Areni, que fica próxima aos rios Arpa e Gnishik, na províncial central de Vayotz Dzor, a cerca de 125 km da capital Yerevan, a caverna está a uma altitude de 1.080 metros acima do nível do mar e pertence ao período Cretáceo. E graças ao seu microclima, todos os vestígios dentro dela estão perfeitamente preservados. Arqueólogos e cientistas acreditam que a Areni-1 foi habitada por pessoas durante o período Calcolítico (Idade do Cobre) Tardio (cerca de 6.000 a 3.000 a.C.), pessoas essas as quais eles se referem como a “cultura arqueológica Kura-Araks”, que eram contemporâneas do Egito pré-dinástico e que habitavam locais com histórica presença armênia: nos atuais territórios da Armênia, Geórgia, Azerbaijão e partes do Irã e Turquia. E os materiais recuperados da caverna sugerem que as atividades humanas ocorreram durante um período de décadas ou séculos, desde o final do quinto milênio a.C. até o início do quarto milênio a.C. Além disso, as escavações realizadas indicam a probabilidade de haver uma divisão de trabalho entre os Kura-Araks, refletindo na forma como a caverna foi utilizada. Assim, havia diferentes espaços para fins específicos, como: locais de habitação, locais de produção econômica e material; e lugares designados para rituais e ritos funerários. E nela, foram descobertos sementes, nozes, restos de carvão, um furador de osso e lâmina de obsidiana, inúmeros restos de cerâmica, ossos de ovelhas, cabras e porcos, além de diversos dentes humanos. E em sua parte traseira, os habitantes utilizavam poços com grandes potes ou vasos de cerâmica para descarte de lixo; curiosamente, os ossos de várias crianças e bebês foram encontrados nestas áreas de lixo e não se tem conhecimento se eles foram considerados “lixo”. Provavelmente, os Kura-Araks consumiam a carne de cabras e ovelhas, já que ossos espalhados de animais com marcas de abate sugerem isso. Incríveis descobertas E a descoberta mais famosa da Areni-1 é o Sapato Areni-1, que leva o nome devido à caverna. Feito de couro e com 5.500 anos de idade, esse sapato é mais antigo que as Pirâmides de Gizé e 1.000 anos mais antigo que o sapato encontrado em Ötzi, o “Homem do Gelo”. Descoberto pela arqueóloga Diana Zardaryan, que fazia parte de uma equipe internacional de arqueólogos liderado por Boris Gasparyan, o sapato foi encontrado de cabeça para baixo em um poço de 45 cm de profundidade e 48 de largura, sob uma tigela de cerâmica quebrada e, perto dele, estavam chifres de cabra e outro pote quebrado. As condições perfeitas do Sapato Areni-1 se devem às condições secas e frias dentro da caverna; outro fator que ajudou foi a camada de esterco de carneiro acima do objeto, que atuou como um bloqueio sólido. Feito em uma única peça de couro e com 24,3 cm de comprimento e 7,3 cm de largura, os pesquisadores creem que o sapato pertencia a uma mulher, devido ao tamanho – para os padrões atuais, seria um calçado 36 ou 37. Porém, teria sido possível que o sapato fosse de um homem, já que eles eram menores naquela época. Outra descoberta muito famosa e importante foi realizada em 2011: a vinícola mais antiga do mundo. Datada de 4.100 a.C., a vinícola mostra que os vinicultores da Idade do Cobre prensavam seu vinho à moda antiga, usando os pés. Na caverna, foi desenterrada uma prensa para pisar em uvas, além de vasos de fermentação e armazenamento, copos, videiras murchas, casca e sementes. Segundo os pesquisadores, a descoberta é “importante e única”, porque indica a produção de vinho em larga escala desde aquela época, o que implica que as uvas já haviam sido domesticadas pelos povos que habitavam ali. Além disso, o cultivo de uvas anunciou o surgimento de novas e sofisticadas formas de agricultura. Como a Armênia é considerada o berço da vinicultura, acredita-se que o vinho tenha sido para fins religiosos ou ritualísticos. Em 2010, foi a vez da saia mais antiga do mundo ser descoberta. Feita de junco, que é uma planta citada diversas vezes na Bíblia, essa saia é justamente a roupa de junco mais antiga do mundo. Sobre ela, Pavel Avetisian, chefe do Instituto de Arqueologia e Etnografia de Yerevan, disse: “As roupas femininas remontam ao Século XXXIX a.C. Até agora, descobrimos partes dessa saia, que foram preservadas de forma única. É um material incrível, com tons de cores rítmicos. Além dela, outros remanescentes de material de palha também foram descobertos”. E, por fim, liderada pela mesma equipe que descobriu o Sapato Areni-1, o pedaço de cérebro mais antigo do mundo foi encontrado em 2009. Ele estava dentro de um dos três crânios humanos descobertos, que pertenciam a meninas de 12 a 14 anos de idade da Idade do Cobre; cada um dos crânios estava enterrado em uma câmara separada e as três meninas claramente ocupavam uma posição elevada em sua sociedade. Graças ao clima úmido da caverna, o cérebro estava bem preservado e, nele, foram encontrados restos de glóbulos vermelhos e brancos. A descoberta é tão impressionante que sobre ela o arqueólogo Boris Gasparyan comentou: “É claro que as múmias do Egito faraônico continham cérebros, mas o que encontramos é mais