120 anos do gênio Aram Khachaturian
A cultura armênia é rica em diversos sentidos e campos. Mas, sem dúvidas, um dos destaques fica para a música, com nomes como Sayat Nova e Komitas. E foi na música que surgiu um dos maiores gênios armênios da história: Aram Khachaturian, que hoje, dia 6 de junho, completaria 120 anos. Origens Nascido em 6 de junho de 1903, seu local de nascimento ainda é um mistério: para muitos, nasceu em Tbilisi, capital da Geórgia, que à época era parte do Império Russo e que tinha uma grande presença armênia; para outros, inclusive para o próprio Khachaturian, nasceu no vilarejo de Kodzhori, próximo a Tbilisi. Seu pai Yeghia (Ilya) Khachaturian e sua mãe Kumash Sarkisovna ficaram noivos antes de se conhecerem, quando seu pai tinha 19 anos e sua mãe nove anos de idade. Tiveram cinco filhos – quatro filhos e uma filha –, sendo Aram o mais novo. Ele recebeu sua educação primária na escola comercial de Tbilisi e, como profissão, considerou seguir carreira em medicina ou engenharia, Nos Séculos XIX e XX, Tbilisi era uma cidade multicultural e centro administrativo do Cáucaso. Assim, Khachaturian foi exposto a várias culturas e, em um artigo escrito em 1952 intitulado “Minha ideia do elemento folclórico na música”, ele disse: “Cresci num ambiente rico em música folclórica: festividades populares, ritos, acontecimentos alegres e tristes na vida do povo sempre acompanhados de música, as melodias vivas de canções e danças armênias, azerbaijanas e georgianas executadas por bardos folclóricos [ashugs] e músicos — tais foram as impressões que ficaram gravadas na minha memória, que determinaram o meu pensamento musical. Eles moldaram a minha consciência musical e lançaram as bases da minha personalidade artística…” Família de Aram Khachaturian, 1913, Tbilisi Sentados: Suren, Kumash Sarkisovna, Aram (braços cruzados), Yeghia Voskanovich, Levon Em pé: Sara Dunaeva (esposa de Suren), Vaginak e sua esposa Arusyak Aos 18 anos de idade, Aram Khachaturian se mudou para Moscou, onde já vivia seu irmão Suren; lá, se matriculou no Instituto Musical Gnessin para estudar música, ao mesmo tempo que estudava biologia na Universidade Estadual de Moscou. O seu desenvolvimento musical foi rápido e rapidamente ele se tornou um dos melhores alunos. Inicialmente estudando violoncelo, mais tarde ele ingressou em um curso de composição e foi nesse período, a partir de 1925, que ele compõe suas primeiras obras: a Suíte de Dança para violino e piano (1926) e o Poema em Dó Sustenido Menor (1927). Nesses primeiros trabalhos, ele usou extensivamente a música folclórica armênia. Aram Khachaturian em seus anos de estudante Porém, apesar da influência armênia, vale a pena mencionar que Aram Khachaturian sempre foi desprovido de qualquer ufanismo; ele tinha um profundo respeito e um vivo interesse pela música de várias nações e o internacionalismo é um dos traços característicos do trabalho criativo do célebre compositor. Carreira Em 1935, como trabalho de formatura do Conservatório de Moscou, lançou sua Primeira Sinfonia, marcando o início de um novo período de vida e de trabalho criativo do compositor. O público, a imprensa, colegas e amigos elogiaram o alto valor artístico da composição, a originalidade, a riqueza de melodias, as cores harmônicas e orquestrais e o brilhante colorido nacional da música – mais do que isso, seu trabalho chamou a atenção de maestros proeminentes e logo foi executada pelas melhores orquestras soviéticas da época. Em 1936, ao concluir seus estudos de pós-graduação, iniciou uma carreira criativa ativa e escreveu, no mesmo ano, sua primeira grande obra: Concerto para Piano. Com ela, obteve sucesso e se tornou um compositor respeitado na União Soviético e, além disso, foi tocado e aclamado muito além das fronteiras soviéticas, estabelecendo, assim, seu nome no exterior. Com tanto renome com tão pouca idade, em 1939 ele fez uma viagem de seis meses à sua Armênia natal para fazer um estudo aprofundado do folclore musical armênio e coletar canções folclóricas e danças para seu primeiro balé – intitulado Felicidade -, que completara no mesmo ano. A viagem para a Armênia também serviu, segundo o próprio Khachaturian, como um “segundo conservatório”. Lá, nessa comunhão com a cultura nacional e prática musical do país, aprendeu muito, viu e ouviu muitas coisas e, ao mesmo tempo, teve uma visão dos gostos e exigências artísticas do povo armênio. Em 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial, ele reformula seu balé Felicidade e transforma a sua nova obra em um de seus trabalhos mais celebrados: o balé Gayane, uma composição em que o compositor sintetizou habilmente a tradição do balé clássico com o folclore da música nacional armênia e da arte coreográfica. Aram Khachaturian com as bailarinas Xenia Zlatkovskaya e Tatyana Vecheslova em 1942 Apresentado pela primeira vez pelo Balé Kirov, o balé foi um grande sucesso e rendeu a Khachaturian seu segundo Prêmio Stalin (e dessa vez de primeira classe) – ele devolveu o dinheiro da premiação ao estado soviético e pediu para que o estado usasse o valor para a construção de um tanque para o Exército Vermelho. E ainda hoje, Gayane é um sucesso e partes da obra foram utilizados em clássicos do cinema, como “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1969) e “Aliens, o Resgate” (1986). Em 1943, ele compôs a Segunda Sinfonia pelo 25° aniversário da Revolução de Outubro. Novos e extraordinários lados de seu trabalho criativo foram revelados nesta composição dos anos de guerra, em que a música foi enriquecida com novas cores de heroísmo e tragédia. Dmitriy Shostakovich escreveu: “A Segunda Sinfonia é talvez a primeira composição de Khachaturian, na qual o início trágico atinge novos patamares; mas, apesar da sua essência trágica, esta composição está repleta de profundo otimismo e crença na vitória. Uma combinação de tragédia e afirmação de vida aqui está adquirindo grande poder.” Já em 1944, ele criou duas importantes obras: a música incidental para a peça Masquerade, de Mikhail Lermontov, e o hino nacional da República Socialista Soviética da Armênia. Mesmo com seu sucesso e reconhecimento na União Soviética, em 1948, juntamente com Dmitry Shostakovich e Sergey Prokofiev, Khachaturian foi acusado
Shavarsh Karapetyan, um improvável herói armênio

A Armênia, além de seus heróis clássicos e históricos, como Hayk Nahapet, o patriarca e fundador da Nação Armênia, também tem seus heróis comuns e não tão famosos. Entre eles, temos os heróis que lutam pela pátria, como aqueles que lutaram na Guerra dos 44 dias, e temos aqueles que viraram heróis por acaso, como Shavarsh Karapetyan, um até então simples nadador armênio, e que faz aniversário hoje, dia 19. Vida, infância e natação Karapetyan nasceu no dia 19 de maio de 1953 em Vanadzor, a terceira maior cidade da Armênia (que à época se chamava Kirovakan), na então União Soviética. Aos 11 anos de idade, junto de sua família, se mudou para Yerevan, onde terminou seus anos de escola e, posteriormente, frequentou uma escola técnica de mecânica de automóveis. Devido ao conselho de amigos de sua família, desde muito cedo ele começou a nadar e, depois, ele começou a praticar natação com nadadeiras, onde se destacou a nível mundial – a natação com nadadeiras (mundialmente conhecida como “finswimming”) é um esporte nascido na década de 1950, que consiste em um nado subaquático, e por vezes na superfície, sem o uso dos braços e com o auxílio de uma nadadeira comum (uma para cada pé) ou de uma mononadadeira (visualmente duas unidas) e um snorkel. No esporte, ele se tornou recordista mundial 11 vezes, conquistou sete campeonatos soviéticos, 13 campeonatos europeus e 17 campeonatos mundiais. Ao se aposentar, ainda jovem – e saberemos o porquê em breve –, ele havia conquistado 37 medalhas de ouro e havia recebido o título de Mestre do Mérito de Esportes da URSS. Shavarsh Karapetyan em competição nos anos 70 na URSS Heroísmo e aposentadoria Em uma fria manhã, no dia 16 de setembro de 1976, Karapetyan havia acabado de completar uma prova de 26 quilômetros quando ouviu um grande estrondo e viu um trólebus afundando em um reservatório de água, que era conhecido como Lago Yerevan. A causa exata do acidente com os 92 passageiros permanece desconhecida. Alguns disseram que um dos passageiros atacou o motorista após uma discussão entre eles; outros alegaram que o motorista teve um ataque cardíaco. Com o veículo a 10 metros da superfície e a maioria dos passageiros estando inconscientes e submersos, sem pensar duas vezes, Shavarsh Karapetyan pulou na água congelante e pediu para que seu irmão, o também campeão de natação Kamo Karapetyan, o ajudasse no resgate. E apesar das condições da água, que estavam infestadas de esgoto, e da pouca visibilidade devido ao lodo, Karapetyan mergulhou e usou suas pernas para chutar a janela traseira do trólebus. Ele mergulhou nas águas fritas e turvas do Lago Yerevan cerca de 40 vezes, entrando e saindo através de vidros quebrados, procurando os passageiros no escuro. Enquanto mergulhava, seu irmão Kamo cuidava das pessoas levadas à superfície. Cada mergulho de Shavarsh Karapetyan levava cerca de 25 segundos e no último mergulho, à beira do desmaio, ele emergiu agarrado a uma almofada de assento, que pensou à época ser uma vítima. Sobre isso, ele disse anos depois: “tive pesadelos com aquela almofada por muito tempo. Eu poderia ter salvado a vida de outra pessoa”. Após seu último mergulho, ele perdeu a consciência. Com cortes devido aos vidros e vítima de uma contaminação devido à poluição da água e, também, por uma grave pneumonia, Karapetyan foi hospitalizado junto às vítimas do acidente e ficou inconsciente por 46 dias, ficando entre a vida e a morte. Sobre o acidente, ele disse anos depois: “Foi assustador no começo. Foi tão alto, como se uma bomba tivesse explodido. Quase me afoguei várias vezes. Eu podia imaginar a agonia daquelas 92 pessoas e sabia como elas iriam morrer”. A operação de resgate no Lago Yerevan Contrariando todas as expectativas, ele conseguiu se recuperar. Quando finalmente recebeu alta, voltou a praticar natação, mas nadar debaixo d’água era muito doloroso para seus pulmões. Mesmo assim, o atleta se recusou a se aposentar sem mais uma medalha. Durante o campeonato seguinte, ele nadou enquanto seu irmão Kamo corria ao longo da piscina, pronto para pular caso Shavarsh perdesse a consciência repentinamente. Mas ele chegou em primeiro e estabeleceu outro recorde mundial. Shavarsh Karepetyan na época que ainda competia profissionalmente A história do resgate heróico de Shavarsh, que era passada de uma pessoa para outra, se tornou uma lenda urbana em Yerevan, embora a imprensa soviética mantivesse tais relatos de acidentes em segredo. O resgate heroico e audacioso dele só foi divulgado apenas seis anos depois, quando o jornal Komsomolskaya Pravda publicou um artigo do jornalista Gennady Bocharov sobre o ocorrido, mas sem mencionar o número de mortos. Após a publicação, cerca de 60 mil cartas de toda a União Soviética chegaram a Shavarsh; muitas delas simplesmente endereçadas à “República Armênia, Yerevan, Shavarsh Karapetyan”. Herói mais de uma vez Por mais improvável que pareça, o resgate do trólebus que quase custou a sua vida não foi a primeira vez que Shavarsh Karapetyan salvou vidas. Em 1974, ele evitou um acidente envolvendo um ônibus que transportava 30 pessoas. O motorista havia estacionado o ônibus para verificar algum problema mecânico, mas deixou o motor ligado. De repente, o ônibus começou a descer uma ladeira em direção a um desfiladeiro na montanha. Karapetyan, que estava no ônibus, quebrou a divisória que separava o compartimento do motorista, agarrou o volante e desviou o veículo do abismo, salvando a vida de todos. E o resgate do trólebus também não foi seu último ato de heroísmo. Em 1985, ele estava perto da Arena Esportiva e de Concertos de Yerevan quando um incêndio começou no prédio. Ele foi uma das primeiras pessoas a correr para ajudar os bombeiros e as pessoas no prédio. Infelizmente, mais uma vez ele precisou ser hospitalizado, já que sofreu queimaduras graves durante a operação de resgate. Karapetyan com algumas das suas medalhas que conquistou durante sua vitoriosa carreira Em 1993, ele se mudou para Moscou com sua esposa e três filhos, onde vive até hoje; na capital russa,
Armênia: política, história e sociedade

A Armênia, apesar de sua história milenar, sua importância geopolítica e de ter uma comunidade vibrante no Brasil e em diversos outros países, nunca teve a cobertura de impacto na imprensa brasileira. E foi pensando nisso que a UGAB Brasil organizou, de forma inédita na história da entidade, um curso para dar a cinco jornalistas brasileiros de alto nível e de renome um panorama abrangente do país e de sua pluralidade. E foi assim que surgiu a primeira edição do curso “Armênia: política, história e sociedade”, no qual os jornalistas Filipe Figueiredo, do Xadrez Verbal, Fernanda Simas, de O Estado de S. Paulo, Luciane Scarazzati, do UOL, Betina Anton, da TV Globo, e Fernando Andrade, da CBN, puderam ir a Armênia pela primeira vez entre os dias 16 e 28 de abril e conhecer a realidade do país, a situação de Artsakh e do Corredor de Lachin, conhecer mais sobre a história armênia e se aprofundar em diversos outros temas. Os jornalistas que participaram da primeira edição do curso na entrada da sede da UGAB Armênia E o curso oficialmente começou no dia 17 de abril, onde os jornalistas puderam participar de um debate sobre a atual situação de Artsakh e de toda a região com membros do APRI (Applied Policy Research Institute Armenia), incluindo a participação da presidente Lara Setrakian – o APRI, que foi fundado pela UGAB, é um think tank independente e um acelerador de políticas focado no avanço da estabilidade regional, prosperidade sustentável e engajamento cívico no sul do Cáucaso; tem em seus programas e iniciativas uma orientação para a solução de forma concreta dos problemas, abordando os principais desafios enfrentados pela região. Após o debate inicial, o grupo se encontrou com o presidente da UGAB Armênia Vasken Yacoubian e a diretora executiva Marina Mkhitaryan, que falaram sobre a história da UGAB, o papel da entidade na Armênia, Artsakh e na Nação Global Armênia, entre outros. Depois, o grupo visitou a Universidade Americana da Armênia, que conta com apoio da UGAB e, por fim, tiveram um encontro com o Ministro da Economia da Armênia, Vahan Kenobyan. O grupo de jornalistas em encontro com o Vahan Kenobyan, Ministro da Economia da Armênia. No segundo dia do curso, os jornalistas puderam visitar o maior templo yazidi do mundo, o Quba Mêrê Dîwanê, que fica há cerca de 40 minutos de Yerevan. Lá, puderam se encontrar com Khdr Hajovan, que é presidente da União Nacional dos Yazidis, e puderam conhecer mais sobre a história dos yazidis, sua cultura e de como a Armênia é um refúgio para eles. Em seguida, visitaram o Memorial do Genocídio Armênio para compreender mais o primeiro genocídio do Século XX, que foi realizado pelo Império Otomano e que vitimou 1,5 milhão de armênios; lá, puderam conhecer o diretor Harutyun Marutyan. Por fim, terminaram o dia visitando o Yerablur, o cemitério militar onde os heróis armênios que faleceram nos conflitos pela defesa da pátria e de Artsakh estão sepultados. Grupo de jornalistas em visita ao maior templo yazidi do mundo, que fica na Armênia Já no terceiro dia de curso, os participantes saíram de Yerevan com destino a Goris, no sul do país, próximo a Artsakh – a ida até Goris foi um dos pontos mais importantes do curso, permitindo ao grupo uma compreensão da real situação de Artsakh, principalmente em relação ao bloqueio do Corredor de Lachin, que se iniciou em dezembro de 2022 e que continua até hoje. No caminho para Goris e acompanhados de um guia, o grupo pôde conhecer pontos turísticos simbólicos e impactantes da Armênia, como os monastérios de Khor Virap e Noravank, ao mesmo tempo em que aprendiam a história do lugar e, é claro, do país. Visita ao monastério Khor Virap E no quarto dia do curso “Armênia: política, história e sociedade”, o dia em Goris começou com uma entrevista com uma das figuras mais simbólicas de Artsakh e de seu povo: Artak Beglaryan, que é Conselheiro do Ministro de Estado de Artsakh. Ele, que perdeu a visão aos 6 anos de idade após pisar em uma mina colocada por soldados do Azerbaijão no período da primeira guerra de Nagorno-Karabakh, falou diretamente de Artsakh com os jornalistas e explicou como está a situação da região, principalmente após o bloqueio do Corredor de Lachin. E após a importante entrevista, os jornalistas puderam conhecer um dos lugares mais incríveis e especiais da Armênia, que é Khndzoresk, um vilarejo que, por mais de 3 mil anos (e até os anos 1950), as pessoas moraram em cavernas. Em seguida, os jornalistas foram até a comunidade de Tegh, próximo a Artsakh e que é composta por sete vilarejos, e falaram com Davit Ghulunts, o chefe dessas comunidades, e com seu assistente e voluntário pela defesa da população local, Aram Mirzoyan. Na conversa, compreenderam mais a situação desses vilarejos e do medo constante da população de uma nova invasão e de novos ataques. E após eles falaram com a população local desses vilarejos, inclusive com senhoras que produzem lavash, o pão típico armênio, foi a vez de ir até o vilarejo de Kornidzor, a literalmente poucos metros do Azerbaijão, onde conheceram Lusine Karamyan, a antiga chefe do vilarejo de pouco mais de 1.000 habitantes; lá, eles conheceram uma família de refugiados de Artsakh, que deixaram suas vidas para trás e hoje vivem em uma situação difícil. Por fim, o dia terminou em um jantar na casa de Lusine, que mostra a hospitalidade única do povo armênio, mesmo em momentos difíceis como as pessoas dessa região andam vivendo, especialmente desde 2020. Visita à casa de Lusine Karamyan Após o quarto e cheio dia do curso, o quinto dia se iniciou com os jornalistas conversando com Ruben Vardanyan, que foi Ministro de Estado de Artsakh até fevereiro de 2023. Na conversa, Ruben falou sobre sua carreira e sobre a situação de Artsakh e o bloqueio de Lachin. Depois, os participantes foram conhecer a empreendedora Liana Sahakyan, que, por meio
Mesrop Mashtots e o Alfabeto Armênio

Um dos pilares da identidade do povo armênio é, sem dúvidas, a sua língua, que, apesar de fazer parte da família das línguas indo-europeias (assim como o português), possui um ramo próprio e separado – ou seja, apesar de uma origem comum para todas as línguas deste ramo, não existe nenhuma língua similar ao armênio, como é o caso do português e do espanhol e do alemão e do holandês, entre diversos outros exemplos. Em sua milenar história, a língua armênia tem três estágios de desenvolvimento: • Armênio antigo – foi utilizado até o Século XI; • Armênio médio – utilizado do Século XI até o Século XVI; • Armênio novo – utilizado do Século XVII até os dias de hoje. O antigo armênio ou Grabar (“a palavra armênia”) é o primeiro estágio da língua armênia. Foi usado em manuscritos antigos e é usado durante as cerimônias da igreja. A maioria dos manuscritos antigos armênios (são mais de 17.000) foram escritos em armênio antigo e agora estão sendo mantidos no Matenadaran (localizado em Yerevan). Os historiadores mais famosos como Movses Khorenatsi, Koryun, Agantangeghos, Eghishe e muitas figuras públicas famosas viveram e trabalharam durante a primeira fase do antigo armênio. O armênio médio foi utilizado entre os Séculos XI e XVI. Já nova língua armênia foi utilizada a partir do Século XVII; o fundador é o grande poeta Khachatur Abovyan. Tem suas próprias ramificações: o armênio ocidental, que está sendo usado pelos armênios da diáspora, e o armênio oriental, que é a língua oficial da República da Armênia. E ao contrário da língua armênia, que pouco se sabe sobre sua origem, sobre o rico e único alfabeto armênio, que foi criado em 405 d.C., temos muitas informações, no qual vamos falar hoje. Mas antes de falarmos sobre o alfabeto, precisamos falar sobre o seu criador, o monge e santo Mesrop Mashtots. Mesrop Mashtots Nascido no seio de uma nobre família por volta do ano 360 em uma pequena aldeia chamada Hatsik, que ficava próximo ao Monte Ararate – no então Reino da Armênia e que atualmente está localizada na Turquia –, São Mesrop Mashtots desde pequeno tinha fascínio por idiomas, aprendendo, assim, o persa e o grego, um idioma que ele tinha tanto conhecimento que o fez a se tornar conselheiro do rei Cosroes IV da Armênia. Aos 35 anos de idade, ele iniciou sua vida monástica; nesse período, foi ordenado sacerdote e manteve uma estima vitalícia pela vida ascética (ou seja, a prática da negação de desejos físicos ou psicológicos a fim de atingir um ideal ou objetivo espiritual). Além disso, ele espalhou o cristianismo em áreas remotas da Armênia e suprimiu o mazdaísmo, uma religião descendente do zoroastrismo. E foi em suas andanças que ele teve a ideia de traduzir a Bíblia para a língua do próprio povo armênio; um alfabeto armênio deveria ser criado para cumprir essa tarefa – até então, os armênios não tinham alfabeto próprio e, em vez disso, usavam escritas gregas, persas e siríacas, nenhuma das quais era adequada para representar os muitos sons complexos do armênio. As Sagradas Escrituras e a liturgia eram, em grande parte, ininteligíveis para os fiéis e exigiam a intervenção de tradutores e intérpretes. Então, Mashtots foi a Neápolis, na Grécia, e contou sua ideia sobre a criação de um alfabeto próprio ao Catholicos Sahak Part’ev; juntos, para buscar orientação divina nessa tarefa, formaram uma fraternidade de oração. Depois, eles abordaram o rei armênio Vramshapuh, que apreciou o valor de um alfabeto próprio e o potencial para moldar a cultura e a espiritualidade do povo armênio. Gravura representando São Mesrop Mashtots, o fundador do alfabeto armênio Ambos auxiliaram Mashtots na invenção do alfabeto, que também consultou Daniel, um bispo da Mesopotâmia (região que atualmente corresponde ao Iraque, Kuwait e partes da Síria), e Rufinus, um monge de Samósata (na atual Turquia). Assim, em 405, São Mesrop criou um alfabeto de 36 letras, que é composto como uma oração, ao começar com A de Astvats (= Deus) e terminando com K’ de K’ristos (= Cristo). Posteriormente, no Século XX, outras duas letras (“o” e “ֆ”) foram adicionadas ao alfabeto, para representar sons estrangeiros. E a primeira frase em armênio escrita por São Mesrop depois que ele inventou as letras foi a linha de abertura do Livro de Provérbios de Salomão: Ճանաչել զիմաստութիւն եւ զխրատ, իմանալ զբանս հանճարոյ (“Para se conhecer a sabedoria e a instrução; para se entenderem, as palavras da prudência.”) O alfabeto armênio e suas 38 letras A invenção do alfabeto representou o início da literatura armênia e provou um fator essencial na construção da identidade armênia. Ainda incentivado pelo rei Vramshapuh, fundou inúmeras escolas e monastérios pela Armênia, nos quais os jovens aprendiam o novo alfabeto. Também ensinou e trabalhou no mosteiro de Amaras, em Artsakh, onde traduziu do grego a primeira Bíblia Armênia popular, por volta do ano 410. Além do alfabeto armênio, ele é também considerado por vários estudiosos o criador dos alfabetos caucasiano albanês e georgiano. Monge, compositor, teólogo e hinólogo, São Mesrop Mashtots é venerado como santo na Igreja Apostólica Armênia e nas igrejas Ortoda Oriental e Católica Oriental, além de ser homenageado até os dias de hoje por armênios de todos os cantos. Faleceu no dia 17 de fevereiro de 440 em Vagharshapat, a quarta maior cidade da Armênia, e está enterrado em uma capela em Oshakan, um vilarejo a 8 quilômetros da cidade de Ashtarak. O alfabeto armênio Utilizado há mais de 1.600 anos, o alfabeto armênio, além da união nacional, tornou possível que escritores e estudiosos armênios produzissem obras de literatura, história e teologia, obras essas que poderiam ser compartilhadas e estudadas por gerações futuras. Uma das obras mais famosas da literatura armênia é o poema épico “David de Sassoun”, que foi escrito no século X d.C. Este poema conta a história de David, um herói que luta contra os invasores árabes que haviam conquistado a Armênia. O poema se tornou uma parte importante da cultura armênia, e ainda
Khachatur Abovian e o armênio moderno

Apesar de o idioma armênio ser um idioma milenar, assim como sua literatura e seu alfabeto, os falantes de hoje em dia falam uma versão fundada por um dos grandes nomes da rica história armênia: o escritor Khachatur Abovian. Primeiros anos Nascido no dia 15 de outubro de 1809 na vila de Kanaker, nos arredores de Yerevan, que à época era parte do Império Persa, Abovian era filho de Avetik e Takuhi, que haviam se casado seis anos antes. Tinha um irmão que se chamava Garabed, mas que faleceu aos três anos de idade. Pintura de Gevorg Bashinjaghian retratando a casa em que nasceu Khachatur Abovian Vindo de família de origem nobre, era descendente de uma das cinco famílias que governavam a região história de Artsakh [link-artsakh] e, mais do que isso, a família Abovian ocupava o cargo de tanuter (senhorio hereditário) em Kanaker – inclusive, seu tio foi o último a ocupar esse cargo. Por sua origem nobre, desde cedo ele tinha um senso de responsabilidade para com o povo armênio, ao mesmo tempo em que vivia em uma época de grande turbulência e mudança na história armênia, incluindo as invasões otomana e persa e a ocupação russa da Armênia. Quando tinha 10 anos de idade, foi levado por seu pai para Echmiadzin para estudar para o sacerdócio. Porém, ele desistiu depois de cinco anos e se mudou para Tiflis, que era um grande reduto armênio na época – hoje, a cidade é conhecida como Tbilisi e é a capital da Geórgia. Lá, estudou estudos armênios e línguas na Escola Nersisian sob a orientação do célebre autor Harutiun Alamdarian (1795-1834). Se formou em 1826 e havia planejado se mudar para Veneza para continuar seus estudos. No entanto, o início da Guerra Russo-Persa (1826-1828) mudou seus planos e nos três anos seguintes ele lecionou no monastério de Sanahin e trabalhou para o Catholicos Yeprem I (1809–1830) como seu escriturário e tradutor. Mudança A grande mudança na vida de Khachatur Abovian aconteceu em setembro de 1829, quando Friedrich Parrot, professor de física da Universidade de Dorpat, em Livônia (na atual Tartu, Estônia), viajou à Armênia para escalar o monte Ararat. Parrot, que tinha como objetivo realizar estudos geológicos, solicitou um guia local e um tradutor para essa expedição inédita, que tinha aprovação do imperador Nicolau I do Império Russo, que agora dominava a Armênia; assim, o Catholicos designou Abovian para esse trabalho. E graças a ele, Parrot se tornou o primeiro explorador nos tempos modernos a alcançar o cume do Monte Ararat. O Monte Ararat, que Friedrich Parrot subiu em 1829; após o Genocídio Armênio, está localizado na atual Turquia Para fazer esse feito, Abovian e Parrot cruzaram o rio Arax no distrito de Surmali e seguiram para a aldeia armênia de Akhuri, localizada na encosta norte do Ararat, a 1.200 metros acima do nível do mar. E seguindo conselho de seu professor Harutiun Alamdarian, foi montado um acampamento base no Mosteiro de São Hakob, que fica a uma altura de 1.943 metros acima do nível do mar – Abovian foi um dos últimos viajantes a visitar ambos os lugares antes de serem soterrados, após um trágico terremoto em 1840. Todavia, a primeira tentativa de escalar a montanha falhou devido à falta de roupas quentes. Outra tentativa foi realizada seis depois, após conselho de Stepan Khojuants, o chefe de Akhuri; ; dessa vez, pelo lado noroeste. E depois de atingir uma altitude de 4.885 metros, a dupla teve que voltar pois não alcançaram o cume antes do pôr do sol. Finalmente, eles alcançaram o cume na terceira tentativa, no dia 9 de outubro de 1829, às 15h15. Ao chegar lá, Abovian cavou um buraco no gelo e ergueu uma cruz de madeira voltada para o norte. Além disso, pegou um pedaço de gelo do cume e carregou consigo em uma garrafa, considerando a água como benta. Menos de um mês depois, no dia 8 de novembro, eles escalaram o Baixo Ararat. Khachatur Abovian voltou a escalar o Monte Ararat outras duas vezes: em 1845, com o mineralogista alemão Otto Wilhelm Hermann von Abich, e com o inglês Henry Danby Seymor, em 1846. O mentor de Abovian, Friedrich Parrot Impressionado por seu guia e amigo, Friedrich Parrot o ajudou a entrar na Universidade de Dorpat. Lá, Abovian estudou Ciências Sociais e Naturais, Literatura e Filosofia Europeia, aprendendo ao mesmo tempo o alemão, russo, francês e latim. Armênia Um grande admirador e amante do povo armênio, Abovian retornou à Armênia em 1836, preocupado com a opressão de seu povo por potências estrangeiras e preocupado com a limitada cultura intelectual da sociedade armênia. Ele escreveu prolificamente, explorando questões contemporâneas por meio de uma variedade de estilos de escrita: romances, contos, descrições, peças de teatro, composições científicas e artísticas, versos e fábulas. Além disso tudo, ele foi o primeiro escritor armênio a escrever literatura infantil. Mais do que apenas interessado em publicar suas ideias, ele queria garantir que seu trabalho pudesse ser lido e compreendido por todos. Como resultado dessa ideia, ele compôs obras em vernáculo coloquial, acreditando que escrever na língua falada pelo seu público tornaria sua obra mais lida, mais compreendida e, portanto, mais impactante. Isso o levou a escrever o primeiro romance na história publicado em armênio oriental: As Feridas da Armênia (Verk Hayastani, numa transliteração livre). As Feridas da Armênia O romance histórico, que foi escrito em 1841 e publicado pela primeira vez apenas em 1858, foi o primeiro romance secular armênio dedicado ao destino do povo armênio e sua luta pela libertação no período da Guerra Russo-Persa, ao mesmo tempo em que aborda o sofrimento dos armênios sob a ocupação persa. Além disso, sua importância se deve pelo fato de que Abovian o escreveu na língua armênia moderna (o armênio oriental), se baseando no dialeto de Yerevan em vez do armênio clássico. Assim, Khachatur Abovian inaugurava a literatura armênia moderna. O romance tem como conceito básico a afirmação de sentimentos de mérito nacional, patriotismo e ódio aos opressores;
Comunidade internacional precisa agir para evitar novo genocídio armênio

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, o diretor da UGAB Brasil, Haig Apovian, escreve sobre a atual situação de Artsakh, onde desde o dia 12 de dezembro mais de 120 mil pessoas que vivem na região estão sitiadas devido a um bloqueio coordenado pelo governo do Azerbaijão. Confira na íntegra o texto: “Comunidade internacional precisa agir para evitar novo genocídio armênio Reconhecer independência da República de Artsakh em 2122 pode ser tarde demais Desde o dia 12 de dezembro, mais de 120 mil pessoas que vivem em Artsakh [Nagorno-Karabakh] estão sitiadas devido a um bloqueio coordenado pelo governo do Azerbaijão, que isola a região do mundo exterior, deixando toda a população, incluindo idosos, pacientes internados e mais de 30 mil crianças, sem acesso a alimentos, remédios, combustíveis e itens de necessidades básicas no meio do inverno. Por três dias, o fornecimento de gás, fundamental para o aquecimento, também foi cortado, mas restabelecido após repreensões por parte de governos ocidentais. O bloqueio quer impor à população armênia, que habita a região há milhares de anos, a ideia de que a continuidade em suas terras ancestrais não é mais viável e faz parte de uma tática orquestrada de limpeza étnica e eliminação do povo armênio. Ironicamente, no momento em que o mundo celebra as festas de fim de ano, os armênios, primeiro povo cristão do mundo, enfrentam o período natalino lutando mais uma vez pela sua sobrevivência —pouco mais de cem anos após o evento que ficou conhecido como o primeiro genocídio do século 20. O genocídio armênio, cometido pelo império otomano e exemplo utilizado quando foi cunhado o próprio termo genocídio, é amplamente reconhecido pela maioria das nações ocidentais e órgãos internacionais, mas é negado veementemente até os dias de hoje pela Turquia e seu Estado satélite, o Azerbaijão. O termo, que descreve uma ação deliberada para eliminação de uma nação ou grupo étnico, reflete as ações praticadas atualmente pelo governo de Baku. Sob o falso pretexto de serem “ecoativistas”, “manifestantes” bloqueiam a única via que conecta Artsakh à República da Armênia e impedem a entrada de insumos básicos à sobrevivência e a saída de cidadãos da República de Artsakh, efetivamente condenando à morte pessoas que precisam de cuidados. Essa situação já ocorreu nos últimos dias com pacientes internados em UTIs na capital da região, Stepanakert. Diversos dos supostos manifestantes foram identificados como pessoas ligadas a grupos extremistas e agentes das forças especiais com elos com o governo de Baku, em flagrante contraste ao tratamento dispensado a manifestantes reais, recorrentemente presos e perseguidos pelo governo do Azerbaijão. O Azerbaijão, uma petroditadura que possui um dos piores índices no mundo em corrupção e liberdade de imprensa e um longo histórico de agressão a opositores e minorias, possui reais problemas ambientais, especialmente na costa do mar Cáspio, onde estão os campos de exploração de petróleo e gás. Mas lá, ao contrário do que ocorre nas falsas manifestações, não há espaço para ações legítimas de proteção à natureza e direitos humanos. Ao contrário da atenção e cobertura que as agressões sofridas pela Ucrânia estão recebendo, os mais de 120 mil armênios de Nagorno-Karabakh estão abandonados à própria sorte, sufocados lentamente por um dos governos mais repressores e violentos do mundo, que em 2020 lançou uma guerra em plena pandemia, matando mais de 5.000 armênios. É fundamental que governos e órgãos de todo o mundo civilizado se manifestem contra a agressão deliberada sofrida pela população de Artsakh, a fim de evitar a repetição da história com um novo genocídio. Em agosto de 1939, antes de invadir a Polônia, como justificativa para a impunidade do que seria cometido, Hitler teria dito: “Quem hoje se lembra dos armênios?”. É hora de reconhecer a independência da República de Artsakh e se manifestar pelo direito do povo armênio de viver em paz em suas terras! Reconhecer o fato em 2122 pode ser tarde demais!”
Mkhitar Heratsi, o pai da medicina armênia

Influente até os dias de hoje, o pai da medicina armênia foi um gênio que fez contribuições importantes para a medicina mundial Você sabia que hoje, dia 18 de outubro, é celebrado no Brasil o Dia do Médico? Pensando nisso, nada mais justo que homenagear o pai da medicina armênia: Mkhitar Heratsi! Origens Mkhitar Heratsi foi um médico, cientista e autor armênio medieval que viveu durante os séculos XII e XIII, sendo mais conhecido por suas contribuições para o campo da medicina e por seus extensos escritos sobre uma ampla gama de tópicos, como ciência, filosofia e teologia – ele era poliglota e um conhecedor do trabalho de médicos árabes, gregos e persas. Nascido na cidade de Khoy – atualmente no Irã – em ano indeterminado (provavelmente em 1100 ou 1118 ou 1120), era filho de um rico comerciante armênio. Recebeu uma educação abrangente em ciências e humanidades e desde muito jovem demonstrou uma particular aptidão para a medicina e começou a estudar a fundo o assunto. Acabou se tornando um médico após estudar no Reino Armênio da Cilícia, que era um reino que ficava localizado ao redor do golfo de Alexandreta, no mar Mediterrâneo (atualmente a região do sul da Turquia) e que foi independente entre 1078 e 1375. Muito renomado, serviu como médico pessoal de vários reis e nobres armênios, sendo creditado por fazer contribuições significativas para o campo da medicina, incluindo o desenvolvimento de novas técnicas e a introdução de novas plantas medicinais e remédios, já que ele se interessava profundamente no mundo natural e fez contribuições significativas para o estudo da botânica, zoologia e outras disciplinas. Além de seu trabalho na medicina, Heratsi também foi um escritor prolífico em outras áreas, tendo escrito vários livros e tratados sobre uma ampla gama de assuntos, incluindo filosofia e teologia. Suas obras foram amplamente lidas e ele é considerado um dos principais intelectuais de seu tempo. Algumas das obras mais notáveis de Heratsi incluem “Livro de Medicina”, um que foi amplamente utilizado no Oriente Médio e na Europa; “Livro de Doenças”, um estudo detalhado de várias condições médicas e seus tratamentos; e “Livro dos Tesouros”, uma coleção de ensaios filosóficos e científicos. Porém, sua obra mais conhecida é “Alívio das Febres”, lançada em 1184, onde ele discute, entre outros assuntos, febres, cirurgias, dietas e psicoterapia – vale a pena destacar que a obra não foi escrita em armênio clássico, evidenciando que Heratsi queria disponibilizar o livro ao cidadão armênio comum. Um verdadeiro gênio, além do trabalho em todas as áreas citadas anteriormente, ele também atuou nas áreas de educação e reforma social, tendo sido um forte defensor da expansão da educação e do estabelecimento de escolas. Apesar de suas muitas realizações, pouco se sabe sobre a vida pessoal de Mkhitar Heratsi. Acredita-se que ele tenha morrido no ano de 1200 na atual Turquia e o seu legado continua a ser celebrado mesmo séculos após sua morte, já que seu trabalho foi reconhecido e estudado por estudiosos de todo o mundo. Mais do que isso, ele ainda é lembrado como um pioneiro no campo da medicina e um pensador brilhante. Reconhecimento Mesmo mais de 800 anos após a sua morte, o reconhecimento pela vida e história de Mkhitar Heratsi continua: a Universidade de Medicina de Yerevan leva o seu nome, bem como a mais alta honraria da Armênia outorgada aos profissionais de saúde, a Medalha de Mkhitar Heratsi. Em 2021, o profissional outorgado foi Vicken Sepilian, que é o Presidente do Comitê Médico Internacional Armênio e que desempenhou um papel importante no combate à COVID-19 e na ajuda às vítimas da Guerra de 44 dias. Já em 2022 a medalha foi outorgada, por sua contribuição significativa ao campo da saúde, ao médico Gagik Jilavyan, Chefe do Departamento de Oncoginecologia do Centro Nacional de Oncologia V.A. Fanarjyan, que completou 75 anos em 2022. Nesta data tão simbólica, parabenizamos a todos os médicos, que séculos depois, ainda continuam os passos e legado de Mkhitar Heratsi!
34 anos do movimento Karabakh

Hoje, dia 20 de fevereiro, armênios de todo o mundo relembram os 34 anos do Movimento Karabakh, um movimento nacional que aconteceu entre 1988 e 1991 e que contou com adesão popular na Armênia e Artsakh. Nele, foi defendido, de forma legítima e democrática, durante ainda os anos da União Soviética, a transferência do Oblast Autônoma de Nagorno-Karabakh, então controlado pelo Azerbaijão, para o controle da Armênio. Porém, para entendermos a importância do Movimento Karabakh, temos que entender suas origens. A República de Artsakh, também conhecida como Nagorno-Karabakh, historicamente sempre foi habitada por armênios, há milênios. Porém, em 1920, ela foi anexada à União Soviética e, três anos depois, foi estabelecida como uma região autônoma dentro da República Soviética Socialista do Azerbaijão. Essa medida de colocar uma maioria armênia dentro da república azerbaijana, mesmo contra a vontade da população local armênia, fazia parte da estratégia soviética de “dividir para conquistar”. Como consequência, de 1923 a 1989, a população armênia na região diminuiu de 95% para 76%, já que o governo do Azerbaijão dificultava a vida dos armênios e favorecia o estabelecimento dos azerbaijanos, numa tentativa de mudar o cenário da região e os fatos históricos. E por anos a população armênia em Artsakh demandou fazer parte da República Soviética Socialista da Armênia e, se não fosse possível, da República Soviética Socialista da Rússia. Entretanto, esses pedidos não foram aceitos. Até que em 1988, os armênios iniciaram um movimento nacional em Artsakh, com o objetivo de se separar do Azerbaijão. A esse movimento, foi dado o nome de Movimento Karabakh. Apesar de ter oficialmente ter se iniciado em 1988, a primeira mobilização que levou à criação desse movimento começou em setembro de 1987, quando o primeiro partido não comunista na Armênia – chamado União Para a Autodeterminação Nacional – foi estabelecido por Paruyr Hayrikyan, que foi um dos líderes mais ativos do movimento democrático na União Soviética. E apenas semanas depois, no dia 18 de outubro, um pequeno comício foi realizado na Praça da Liberdade, em Yerevan, pedindo a unificação de Artsakh com a Armênia. Já a partir de 1988 o movimento começa a ficar maior: no dia 13 de fevereiro, acontece a primeira manifestação em Stepanakert, capital de Artsakh; para muitos, esse é considerado o início do Movimento Karabakh – também, entre os dias 18 e 26 de fevereiro, várias manifestações aconteceram em Yerevan. Porém, a data oficial, como relembramos hoje, é o dia 20 de fevereiro, pois foi nesse dia que o Conselho Regional Autônomo de Nagorno-Karabakh aprovou uma decisão sobre a unificação com a Armênia, lutando, assim, pelo direito dos armênios de Artsakh à autodeterminação. E os armênios foram às ruas em peso: nos dias 24 e 25, 200 mil foram às ruas em Yerevan e 100 mil em Stepanakert; no dia 26, impressionantes 1 milhão em Yerevan e 120 mil em Stepanakert. Ainda no dia 26, as manifestações pararam depois que Mikhail Gorbachev, então líder soviético, pediu tempo para desenvolver uma posição oficial do governo soviético. Como consequência – ou represália – direta desse movimento legítimo, no dia 27 se iniciou a tragédia do Pogrom de Sumgait, onde multidões de azerbaijanos se formaram em grupos e atacaram e mataram armênios nas ruas e em seus apartamentos na cidade de Sumgait, no Azerbaijão Soviético; essa violência durou dias e é o mesmo tipo de violência contra armênios que vemos inclusive nos dias de hoje – e após esse triste caso, uma onda de pogroms contra armênios aconteceu em diversos lugares do território do Azerbaijão, incluindo o Pogrom de Baku (1990), na capital do país. Apesar da negativa soviética e azerbaijana de unificação, o Partido Comunista de Nagorno-Karabakh adota uma resolução exigindo a unificação, que era uma demanda popular. E a partir de novembro, centenas de milhares se manifestaram em Yerevan para apoiar o Comitê Karabakh, que era formado por um grupo de intelectuais armênios e que tinha como objetivo a reunificação de Artsakh e Armênia – como retaliação, membros do comitê foram presos em dezembro e soltos apenas em maio de 1989. Em 1990, também como consequência do Movimento Karabakh, o Conselho Supremo da República Socialista Soviética da Armênia assinava a Declaração da Soberania Estatal da Armênia, que significava que a Armênia anunciava sua independência da União Soviética, o que permitiu, em 1991, uma Armênia independente (link-notícia-30 anos independência da Armênia). E o primeiro presidente da Armênia, que foi eleito de forma democrática pelo povo, foi Levon Ter-Petrosyan, justamente o líder do Movimento Karabakh. Sem ainda conquistar o que o povo armênio de Artsakh desejava, no dia 10 de dezembro de 1991 foi realizado um referendo, com uma simples pergunta (em armênio, azerbaijano e russo) nas cédulas: “Você concorda que a proclamada República de Nagorno-Karabakh seja um estado soberano, para determinar de forma independente formas de cooperação com outros estados e comunidades?” Dos estimados 132.328 eleitores elegíveis, 108.736 pessoas participaram no referendo (82,2%) e 108.615 pessoas votaram “a favor” (99,89% do número de votos). E no dia 2 de setembro de 1992, a República de Nagorno-Karabakh, ou Artsakh, declarou a sua independência, levando em conta o desejo de sua população. Infelizmente, esse desejo nunca foi aceito pelo Azerbaijão, o que desencadeou uma guerra que durou até 1994, vencido pela Armênia – anos depois, em 2020, covardemente o Azerbaijão voltou a atacar Artsakh, desencadeando uma nova guerra. A despeito dos tristes desdobramentos dessa nova guerra, chamada de Guerra dos 44 Dias, a lição do Movimento Karabakh está firme até os dias de hoje: ela uniu o povo armênio e marcou o início de uma nova etapa da luta de libertação nacional dos armênios de Artsakh, em um movimento pacífico que lutou por direitos civis, identidade nacional, igualdade nacional e vida digna, utilizando os mecanismos legais em vigor. Que possamos ver, muito em breve, o desejo histórico do povo de Artsakh ser respeitado. Viva Artsakh e sua luta!
Novas Companhias Aéreas Armênias

Pelos planos de expansão para o turismo e pelas oportunidades de negócio da Armênia, além da locomoção de cidadãos armênios e moradores do país para outros lugares, foi divulgado oficialmente, apenas em 2021, a criação de duas novas companhias aéreas armênias, a Fly Arna e a FlyOne Armenia! Anunciada oficialmente em julho de 2021, a Fly Arna se torna a primeira companhia aérea nacional armênia – ou seja, uma companhia área de propriedade de uma nação ou que seja fortemente identificada com uma – após oito anos de ausência de uma no país. Estabelecida após uma joint venture entre o Fundo de Interesse Nacional da Armênia (ANIF) – que é dono de 51% da companhia – e o Air Arabia Group – que é dono dos restantes 49% e que é o grupo responsável pela primeira e maior companhia aérea de baixo custo do Oriente Médio e Norte da África –, a Fly Arna operará como uma companhia aérea de baixo custo, tendo o Aeroporto Internacional Zvartnots de Yerevan (EVN) como sua base, operando, pelo menos inicialmente, voos para a Ásia Central, Rússia e Oriente Médio – segundo a companhia, voos para a Europa poderão fazer parte da rota da companhia futuramente. Em relação ao nome da Fly Arna, ele foi escolhido entre mais de 500 sugestões recebidas como parte de um concurso, e é derivado de “Armenian National Airlines” (em tradução livre: Companhia Aérea Nacional da Armênia), mais especificamente das seguintes combinações: as duas primeiras letras de “ARmenian”, com a primeira letra de “National” e a primeira letra de “Airline”. E em relação à identidade visual da companhia, as suas cores foram inspiradas na bandeira da Armênia e a logomarca e marca foram projetados para refletir uma companhia aérea nacional jovem e moderna. E inspirada na logomarca e no ethos da marca, a pintura das aeronaves da Fly Arna refletem clareza e uma companhia área voltada para o futuro, que está sempre em movimento, com a letra “A” exibida de forma criativa na cauda da aeronave – essa mesma perspectiva da identidade se refletirá no interior da aeronave, nos uniformes da equipe e em todos os pontos de contato com o cliente. Sobre isso, o CEO da ANIF, David Papazian, comentou: “A identidade da marca Fly Arna reflete verdadeiramente o espírito inspirador e o ethos da Armênia. A revelação da identidade visual da Fly Arna é um movimento inspirador que nos aproxima um passo do lançamento da companhia aérea.” A Fly Arna começará a operar oficialmente no final de maio de 2022. E para saber mais sobre a companhia aérea, visite o site oficial. FlyOne Armenia Já a FlyOne Armenia foi anunciada meses depois da Fly Arna, mas já começou a operar os seus voos. Ela foi criada após um investimento de 60 milhões de euros (cerca de 369 milhões de reais) da companhia área FlyOne, da Moldávia, e recebeu o seu Certificado de Operador Aéreo da Armênia no dia 29 de outubro de 2021. Utilizando uma frota de aeronaves A320 de 180 lugares e negociando, atualmente, três A321, a FlyOne Armenia, assim como a Fly Arna, é uma companhia aérea de baixo custo e tem o Aeroporto Internacional Zvartnots de Yerevan (EVN) como sua base. Porém, diferente da outra companhia aérea armênia, ela já opera voos para a Europa, já que no mesmo período do anúncio de suas operações foi divulgado que a Armênia e a União Europeia chegaram a um acordo na área de aviação para apoiar uma melhor conectividade e melhorar as oportunidades comerciais entre os países membros. Com este acordo, qualquer tipo de limitação e restrição de voos será removida e todas as companhias aéreas da União Europeia poderão operar voos para qualquer aeroporto na Armênia, e o mesmo vale em relação às companhias aéreas armênias em voos para a União Europeia. E o primeiro voo da FlyOne Armenia foi entre Yerevan e Moscou, realizado no dia 15 de dezembro de 2021. Já no dia 18 de dezembro aconteceu o primeiro voo entre Yerevan e Lyon. Além da capital russa e da famosa cidade francesa, a companhia opera ou operará voos diretos para as seguintes cidades: Beirute, no Líbano; Chisinau, na Moldávia; Dubai, nos Emirados Árabes Unidos; Krasnodar, na Rússia; Kiev, na Ucrânia; Tbilisi e Kutasi, na Geórgia; Teerã, no Irã; Tel Aviv, em Israel; e Istambul, na Turquia – o voo para a Turquia foi autorizado no dia 13 de janeiro de 2022 e será operado a partir de fevereiro; a autorização vem no momento em que Armênia e Turquia tentam normalizar as relações diplomáticas, depois de anos de instabilidade entre os países. Para saber mais sobre a FlyOne Armenia ou até mesmo comprar passagens aéreas, visite o site oficial da companhia.
30 anos de independência da Armênia

Com uma história singular e milenar, a Armênia já teve várias formas de expressão de sua soberania, que incluíram, nesses mais de 4 mil anos de existência, reinos medievais, diferentes dinastias e a República Democrática da Armênia. Esta, ao conquistar sua independência no dia 28 de maio de 1918 do Império Russo, se tornou a primeira expressão de soberania armênia desde 1375! Formada após a heroica vitória na Batalha de Sardarapat, a República Democrática da Armênia durou até 1920, quando foi anexada à União Soviética. Embora, infelizmente, tenha durado apenas três anos, ela representa o testemunho da perseverança e coragem do povo armênio. O movimento de independência dos armênios em 1918 foi o precursor que possibilitou que em 1991 fosse conquistado o direito de uma Armênia soberana e livre de existir, a República da Armênia, no qual comemoramos hoje, dia 21 de setembro de 2021, os seus 30 anos de independência! Para conquistar a tão sonhada independência, o caminho armênio começou anos antes: com a ascensão ao poder do líder soviético reformista Mikhail Gorbachev, em 1985, e após anos de opressão por parte do Azerbaijão e líderes soviéticos, os armênios de Artsakh organizaram em 1988 um movimento popular democrático, o Movimento Karabakh (link-notícia-movimento Karabakh). Este movimento foi liderado por Levon Ter-Petrosyan e cresceu a ponto de se tornar uma organização popular democrática, o Movimento Nacional Armênio. Após décadas de dominação soviética e, mais do que isso, respeitando o desejo de todos os armênios, no dia 23 de agosto de 1990 o Conselho Supremo da República Socialista Soviética da Armênia assinava a Declaração da Soberania Estatal da Armênia, que significava que a Armênia anunciava sua independência da União Soviética. Essa declaração foi assinada por Levon Ter-Petrosyan, que se tornaria o primeiro presidente da República da Armênia, e por Ara Sahakian, o então Secretário do Conselho Supremo. A declaração continha 12 itens, entre eles: o direito do retorno para armênios da diáspora (a Armênia Soviética era muito fechada para o mundo exterior, inclusive para armênios), a renomeação do país para República da Armênia, o estabelecimento do armênio como idioma oficial e o apoio ao reconhecimento do Genocídio Armênio (link – seção história) de 1915 na Turquia Otomana e na Armênia Ocidental. Mais do que isso, ela serviu como base para o desenvolvimento da Constituição da Armênia, que foi primeiramente adotada em julho de 1995 e alterada em 2005. Meses depois, no dia 21 de setembro de 1991, ocorreu um referendo em todo o país sobre a libertação armênia da União Soviética, que foi possível, também, no contexto da flexibilização das restrições de Moscou, que vinha acontecendo nos anos anteriores, o que levou ao colapso da União Soviética no dia 25 de dezembro em 1991. Felizmente, a República da Armênia foi aceita como membro pleno da comunidade internacional como um Estado soberano. Entre 1991 e 1993, diversos eventos marcantes aconteceram na nova Armênia independente: em outubro de 1991 foram realizadas as primeiras eleições democráticas, além de ter sido realizado a primeira sessão do parlamento armênio; no mesmo ano, a estátua de Vladimir Lenin foi removida, dando lugar ao Monumento Mãe Armênia, em Yerevan, e deixando para trás o passado sob ocupação soviética; já em 1992, a Armênia foi aceita como membro da Organização das Nações Unidas, seu exército foi criado e a primeira edição de um selo armênio foi lançado; e em 1993, a Armênia emite sua própria moeda nacional, o dram. Mas nem tudo foram flores nesses primeiros anos após sua independência: muitos desafios foram enfrentados, como a Primeira Guerra de Nagorno-Karabakh, que mesmo vencida pela Armênia, custou a vida de milhares de armênios, e o fechamento de suas fronteiras e bloqueios econômicos por parte do Azerbaijão e Turquia, que atrapalharam o desenvolvimento econômico do país. Entre conquistas e dificuldades em seus primeiros anos, a Armênia contou com a ajuda da UGAB e toda sua rede global, além de ter no país, com um trabalho constante em prol de todos, a UGAB Armênia. O passo dado pelos armênios 30 anos atrás – e muitos anos antes – em busca de sua independência foi corajoso e ousado, mesmo que fosse rumo ao desconhecido. Porém, esse novo capítulo de soberania, que celebramos hoje e todos os dias, é um trabalho ainda em andamento, contínuo, que visa desenvolver e manter em paz e segurança aquilo que a Armênia é: o lar nacional e porto seguro para todos os armênios presentes em todos os cantos do mundo. Hoje, que também é o feriado mais importante da Armênia, desejamos a todos um todos um Feliz Dia da Independência, ou, em armênio, um Շնորհավոր անկախության տոնը! Que possamos – e iremos, nós e as futuras gerações – celebrar muitas vezes essa data tão importante para a Armênia e seu povo! Viva a Armênia!